domingo, 18 de dezembro de 2016

Bangu do Largo da Igreja com chafariz
Bairro da minha infância
Onde os muros eram baixos
Bangu de quintais
Com sua serra que nos sombreia
Bairro num eterno pôr do sol
Quente com a efervescência do comércio
A linha férrea que une o bairro
E sua gloriosa fábrica de progresso

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Na mansidão de um fim de tarde
As crianças brincam no pátio
Pousa uma fresca brisa nos meus ombros
Há um salutar da natureza que convoca
Seja uma criança
No sopesar de uma lembrança
Humildemente no campo ameno
Ouço uma cigarra solfejando
Um mundo imaginário borra meus olhos
Alfajores de alegria atrás do vidro
E eu sou só mais um sem namorada
Ouço como os ventos se remoem
Sussurrando confissões de vaidade
Confiantes do seu contentamento
Enquanto minhas ruínas torpemente
Se corroem vendo o povo de andrajos

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ontem Luizinho Caolho
Hoje Luís de Camões
Hoje se ouve muito a palavra gratidão
Da boca de pessoas sem graça
Ontem eu achava que o mundo era mal traduzido
Mas é de fato mal-interpretado

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Aprendam a ser sinceras
E agir com honestidade
Falta de caráter
Se encontra em qualquer esquina
Tenham um pouco de respeito pelos outros
Defendem direitos humanos
Descartam pessoas como lixo

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Lista de opiniões alheias a meu respeito
Só fala merda
Babaca
Maluco
Otário
Tarado
Babaca
É odioso andar em dias chuvosos na cidade
É impressionante como um guarda-chuva
Sobre a cabeça deixa as pessoas tão retardadas
Andam com ele erguido sob as marquises
Não atentam ninguém ao redor
Não se importando se estão incomodando
Ou se podem ferir alguém
É insuportável um bando de imbecis
Com guarda-chuvas enormes na mão
Sem se dar conta que não estão sozinhos no mundo

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Nem foda-se
Nem vtnc
Nem vai pra puta que te pariu
Nem pra casa do caralho
Eu quero um xingamento
Que exprima sinceramente
Meus sentimentos quanto a esses sacripantas ordinários
Pilantras, charlatões
Falsários, facínoras
Hipócritas, covardes
Palavões de verdade
Energúmeno
Estrupício, salafrário, mequetrefe
Nuvens de chuva
Trazem instabilidade para o Rio de Janeiro
Vê-se a boca da Baía de Guanabara
Voltada para o mar aberta
A procura do beijo com o oceano
Cintilante de carneirinhos brancos
Verde pasto mar
Saiu o sol brilhando esmeralda
Clarões de vento amaciam o sol na pele
O contorno escuro do Pão de Açúcar sobressai
E Carlos sentado de costas pra praia reflete
Enquanto posa para fotos com milhares de turistas
Numa eterna manhã de autógrafos

sábado, 10 de dezembro de 2016

Me angustia ver
Tanta gente empobrecida
Morando nas ruas
Tinha esta manhã no ponto
Um senhor, barba longa
Maltrapilho, cabelos desalinhados
Sujo como alguns diriam
Não se tratar de um humano
Do humos vem o humano

Nos sobrados antigos
Caindo aos pedaços
Habitam cortiços
Mas muitos não têm essa sorte
E ocupam as ruas do Rio
Muitas pessoas empobrecidas
Expõem suas fraquezas
Pelas calçadas
Muitas

Muitas perderam tudo
E nada possuem
Além de umas tralhas
Outros tentam
Vendendo algo na rua

O povo pobre das ruas
Clama por atenção
Ódio nasce embaixo dos viadutos
And all I wanna say is that
They don't really care about us

Do pó viemos ao pó voltaremos
Descartados pela sociedade
Abrigados nas marquises, calçadas
Esquinas, pontos de ônibus
São mulheres e homens
Sem lar, em abandono
No destino empobrecido
Que futuro o meu destino me reserva?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Outro dia me dei conta
Eu tenho um perfil falso no Facebook
Eu tenho um fake
E pra quê eu tenho um fake?
Pra ver gente babaca
Que apagou meu número
Mas me mantém na lista de bloqueados
Há uma síndrome pululando nas pessoas
Andam como se o mundo fosse só delas
Passeando como se ao lado não houvesse mais ninguém
Saem por aí sem olhar o outro
Jogam braços para os lados
Atravessando os caminhos sem se perceber

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A vida vista da mesa de um bar
Pode, a primeira menção, parecer imprecisa
Achar-se o que não tem par
Inveterada ao olhar e plenamente concisa
A televisão só se vê o lado esquerdo
De um jogo que só se vê um lado

Peço uma garrafa de cerveja
E espero o garçom trazer na finta
Desço o primeiro copo pra dentro
Do estômago para ampliar o antro
É difícil de acreditar mesmo que ainda se veja
Talvez a realidade me minta

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Hoje eu vi um homem morto
Tinha um sapo encracado no olho
E sua boca era um útero para moscas

Embaixo do cobertor surrado marrom
Era uma figura pálida quase escarnecida
Tinha o sopé aberto para margaridas
E nos seus ouvidos cantavam as cigarras

Ao pé que não ia bem das pedras
Dormindo no amargor da rua
Os vermes já lhe fazem bem
Ao menos eles não lhe dão desdém

Pessoas vêm e vão
Que importância tem
Você pra mim aliás
Tanto faz como tanto fez

domingo, 27 de novembro de 2016

Tinha uma sabiá morta que se via pela minha janela
Nos olhos daquele bicho tinha uma doçura inalcançável
A vida que não havia ali estava tomada de formigas
Elas são sempre as primeiras a chegar à cena de um crime

Tinha uma abelha morta na sacada dessa janela
Dava para ver a morte nas asas dela
Tinha um ar que não batia vento aquela manhã
Já sabia que era um mal presságio pra não sair naquele dia

Quando eu era criança tinha medo do amolador de facas
No silêncio da rua soava maldito zumbido sombrio de faca amolando
Parava a bicicleta e o chamado no girar da roda pairava sonoro
Ela tem muito da vida amolar facas

A roda gira o mundo afora sai faíscas
Diziam que quando ele passava
Alguém estava para morrer
Faca amolada dá perigo nas pessoas

domingo, 20 de novembro de 2016

Ontem os carrascos estavam em greve
Os juízes estavam de folga
Mas o diabo estava lá para me advogar
A morte veio fazer uma visita ontem
Mas não entrou
Ficou na porta e disse
Estou apressado
Fico te devendo essa
Mas é que não vou poder
O olho da morte era frio e sereno
Não veio assustar
Tocou a campainha
Mas não entrou
Ficou da porta e disse
Passo mais tarde com calma

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Nessa noite
O próprio Satanás
Se apoiou em mim
Pedindo passagem
Ao som furioso de harpas celestiais

Eu sou uma sombra desse século
Eu sou a própria escuridão
Não fosse os lampiões iluminando a rua
Estaríamos a própria sorte

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Cercam Tiradentes
A Justiça
A Liberdade
A Fidelidade
A União
Homem louco por morrer
Quis o que quis e foi lá buscar
Teve paz para alcançar
Quando só Sade sabia o que era prazer
Chamou luz e trovão
Fez garrote e boticão
Pra amarrar boi com sua corda no pescoço
A Santa Lampedusa viu
Indo pela avenida
Passos lentos e sagrados
No Amazonas, no São Francisco
No Madeira e no Paraná
Se ouviu o grito
E toda a água ainda não lavou
O seu sangue
Nobre desejo de liberdade
Glorioso destino na forca
Sal grosso e vísceras expostas
Urbe é aglomeração
Não há liberdade sem coração
Calafrio de possibilidade
Delimitando o espaço linear selvagem sem idade
Esquadrinhando uma formatação
Onde antes havia verdadeira diversidade
Há largos, praças, ruas e avenidas
Essa constituição social
Enquadrada em linhas abissais
Ferindo a selvageria humana
Nessa civilização excludente

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Subindo as ladeiras
Segue o bonde pela rua do cano
Desce o cano até a Sete de Setembro
Vem das terras do Silvestre
Trazendo o Rio Carioca sinuoso
Pelo morro da Nova Cintra
E São Judas Tadeu
Do alto do Desterro
Descendo as ladeiras

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Justiça
Liberdade
Ciência
Poesia

Justiça
Liberdade
Fidelidade
União

Rio Paraná
Rio Madeira
Rio Amazonas
Rio São Francisco

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Ah Camões
Meu nobre poeta
Teus versos puros e calorosos
Sonetista habilidoso
Tenho olho para esquinas
Desabrocho azulejos
Compensado de balcões de salgados
Quem dava saber conchas encimadas nos sobrados
Ladrilho escamas em padrões madre-pérola
Mendigo que almeja arte
Feito árvore que deseja pássaro
Frontão triangular e folha de acanto
Santa barroca no cimo estrelado
Doce de abóbada
Cúpula e pedestal

A moça que segura o bebê
Olha da varanda da sacada
O calçamento que faz as estradas
São três flechas cruzadas
Sobre o peito
Ladeadas por golfinhos bailarinos
Confeitos de espelhos na escada
É do largo que o canto vinha
Dos quilombos no meio da mata
Um senhora dava corda no chafariz
O relógio já marcava aquela hora
Imagem que converge olho por olho
Silêncio que emerge do calabouço
Açoitado pela agressão da violência
Onde não sobram casas para todos
Solidão é a questão que me impele
Nessa cidade cosmopolita e colonial

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Felizes finados
Os mortos é que são felizes
Enquanto não morro
Tenho direito em ser triste
Morrer é prazer único
Não tem reprise
A longa espera
A hora irremediavel
Você morre e pronto
Não tem encenação
Quando a morte vem fazer uma visita
É de educação agradecer e convidar para entrar
Ah doce morte
O sereno descanso
A morte no mar
A morte sem vestígio
A morte sem corpo
E eu que tento e tento
Não morro
Eternamente

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Somos deuses e demônios no mesmo corpo
Uns insistem em ser demônios
Para outros que desejam ser deuses
A tarde enaltece como rouxinóis
O sabiá canta para entardar a noite
Ciscam tico-tico para aflorar as pedras
E as andorinhas rodeiam em voo para fazer o verão

Lendo Manuel de Barros aprendi que:
Se eu for tão bom como uma pedra
Posso ser umbral em pedra de cantaria
Ou um poema de João Cabral de Melo Neto

O eco das pedras ausculta o coração da gente
E os matinhos floridos dizem oi aos passantes
Se me piscam eu sofro como sapo que não canta
Cigarras são boas no que fazem e cantam bem em sí bemol

A busca por ascender é constante
A vigília do pico de onde se alto vê
O longe e o distante dialogam
Com o imenso e o vasto

O alerta do horizonte avista uma nesga de fumaça
O céu abre e o entardecer padece
Onde se alcançam as luzes cintilantes da cidade
Como os olhos são levados pelos pássaros
Marquês de Pombal nunca esteve no Brasil
Nas esquinas que entroncam
Os encruzamentos das trilhas de outrora
Adiante o final do Caminho de Mata-Cavalos
Atual Rua do Riachuelo
O Centro onde passam os encontros
De muitos deslocamentos
Um subúrbio do Centro
Vindo da Cruz Vermelha
À região do ausente Morro do Senado
Cruza a Mem de Sá com a Frei Caneca
Partindo do Campo de Santana
No calço da Lapa do Desterro
No limite da Zona Norte
Onde ficavam os chafarizes
Do Lagarto e Paulo Fernandes
Que recebiam quem por aqui
Chegava à cidade
O Centro periférico ao pé de Santa
No alto da Escadaria do Frei Orlando
Encontro no Morro Paula Mattos
Djanira nos portões do Paraíso
Para chegar ao Largo das Neves
Ter um dedo de prosa com Vinícius de Morais
E lá em cima ver o pôr-do-sol pela Zona Norte
Avistando o Catumbi e o Estácio e a Tijuca
Parado na encruzilhada com o diabo ao meu lado
Estou no não-lugar
Bem-vindos à Utopia
Não é aqui e não é lá
Não é Centro
Não é Senado
Não é Cruz Vermelha
Não é Santa Teresa
Não é Lapa
Não é Zona Norte
O final da Frei Caneca com a Mem de Sá com a Riachuelo
Desço por esta última
Encontro com Bentinho
Não devo alardar-lo sobre o seu futuro
Cumprimento com o chapéu
Apenas caminho que sigo
Já perto dos Arcos topo com Madame Satã
Que me pergunta se já vi a nova peça do Nelson Rodrigues
Digo-lhe que estou lendo novamente os Sonetos de Camões
Chegando à Cinelândia
Me deparo com o Convento d'Ajuda
Invadindo a Praça Floriano
E ao fundo o Morro do Castelo sendo desmontado
Quem sabe não morro como os morros do Rio
E morrendo
Eu rio
Como rio morrendo aos poucos para chegar ao mar
Parado lá está Bandeira
Apreciando o estilo eclético de inspiração néo-clássica do Teatro Municipal
Ao seu lado João do Rio
Explicava-lhe sobre sua visita ao Morro de Santo Antônio
Com ele sigo pela Rua da Cancela em direção ao Chafariz da Carioca
E na Travessa dos Poetas de Calçada
Ouço Drummond...
(Que por acaso não estava sentado em Copacabana)
...recitando Canto do Rio em Sol
Paro para escutá-lo por um instante
Como observasse a cidade do Pico da Tijuca
Sigo pela Rua da Vala
E de frente a uma cafeteria
Penso que Pessoa gostaria de ter vindo para cá com Ricardo Reis
Para espiar as pessoas na porta dos bares

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Derrubo cinzeiro
Derramo copo
Queimo a comida

Escrevo errado
Erro na medida
Perco o senso

Esqueço o tempo
Sinto o vento
Olho pro nada

Queimo a camisa
Tropeço no nada
Sinto o perigo

Penso no nada
Calo meu canto
Caio no vazio

Derramo bebida
Derrubo cinza
Parto no navio

Navio em chamas
No meio do furacão
Todo meu sonho

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O amor tá na carne
No físico
O amor tá no táctil físico da carne
O amor é como a fome
E o prazer de comer
Começa na visão
Depois os aromas
Enfim no paladar
E o tato
O amor é um belo churrasco

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Atração corpórea pela sua presença física existencial
Quando você é iniciado
Cresceu na cozinha
Observando sua avó
Sua mãe e suas tias trabalharem
Na cozinha a vida começa
Sabor vem de saber
Saber é provar
Conhecer
E fazer a comida
Preparar
Fazendo antes
Escolhendo os melhores ingredientes
Conhecendo os temperos
Taste que me lembra testar
Testa é cabeça
Cabeça é capta
Captar é perceber
Perceber é estar aberto a experimentar
Captar com as papilas gustativas
Degustar
Gostar
Comedere
Comer é a maior trajetória do ser
Pode ser sua tragédia
Mas também comédia
Sentar-se junto
Compartilhar
Comida vai para o lixo
Comida vem da terra
Comida é a morte
Nunca paramos de comer
Comemos até morrer
Somos insaciáveis
De comida e de morte
A fartura de comida te enobrece
A escassez de comida te enlouquece
Comida serve ao rico e serve ao povo
Os comensais são todos iguais
A comida estraga
A comida é desperdiçada
A comida apodrece
Os restos de comida
São comida não comida
Todo mundo gosta de comer em pratos limpos
O Brasil foi descoberto a troco de temperos
E pra temperar comida cruzaram meio mundo
O homem mata por comida
Atravessa distâncias no tempo
No espaço, na vida, atrás de comida
Comer nos faz esquecer que existimos para outras coisas além de comer
Nos faz esquecer a vida que levamos
Vivemos para comer
Ou comemos por que vivemos?
Eu nunca saberia dizer certas coisas se não fosse a escrita
Essas letras que me custou tanto aprender
Quantos cabeçalhos e cadernos de caligrafia
Pra quem você canta?
Tripulante no convés é marujo
Existe um trabalho sujo e alguém precisa fazê-lo
Qualquer um poderia mas ninguém quer

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ah o amor
O desejo
A paixão
O querer

Ah olhos nos olhos
Na pela
Na nuca
Na púbis

Ah paz na terra
No corpo
Na alma
Na vida


A noite deixa
Chegar a estrela da manhã
Os pássaros chamam
Os raios de luz

A claridade vem
E o teu sorriso me chama
No fundo dos teus olhos
Me afogo na imensidão azul

Ah os olhos glaucos de Atena
Fazem inveja até mesmo em Afrodite
Quem sabe fazendo uma novena
No meu amor ela acredite

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Querem reprimir o canto
De onde vem o canto
Que irrompe a ira dos outros
O meu canto é apenas um lamento
Eu não sei fugir
Eu encaro
Eu parto pra cima
Eu corro pra briga
Eu quero é ver o circo pegar fogo
É tiro
Porrada
E bomba
Eu quero é ver sangue
Ah limpeza
Tudo começa e termina no asseio
Não é apenas limpar
Mas limpar bem
Madrugada
Você quer o meu amor?
To mais solitário que a estrela do Botafogo
Ando e ando longe mas pareço de olhos fechados
Não estou a procura de nada
Para apenas matar o meu desejo
Ai das minhas horas extras aqui na terra
Se eu to no mundo a passeio
Se eu durmo até meio-dia
Se eu trabalho para não ganhar
É inútil lutar
Se já se está vencido?

Quando chega o fim da noite escura
E você quer abraçar alguém
Você se sente com medo
O seu ônibus não passa
E você quer ir pra casa
Todos os seus amigos estão sorrindo
Menos você
A noite é escura
A noite passa
Você não pode se esconder
Você quer deitar sua cabeça
No colo do seu amor
Mas ninguém procura por você
E quem você quer que sente do seu lado
Nunca vem
Mais um dia passa o seu passo solitário
Você se senta olhando para o nada
E nem o horizonte responde
Há sim um destino a sua espera
Você vai deixando o ônibus te levar pra casa
Mas a única coisa que você quer é morrer

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Mãe, mãe
Aquilo é um adulto?
É sim, meu filho
Aquilo é um adulto
E por que ele está vestido com aquelas roupas?
Elas se chamam uniforme de trabalho
Muitos têm que usá-los para cumprir suas tarefas
E por que eles estão andando tão depressa?
Porque eles precisam por comida em suas mesas
E pagar suas contas
E de que maneira eles fazem isso, mãe?
Superando seus esforços a cada dia
Porque precisam se manter vivos
E dar de comer aos seus filhos
Agora eu vou te deixar aqui na escola
E volto mais tarde pra te buscar
Quando sair do meu trabalho

Bem-te-vi cantou na acerola
Bem-me-quer
Mal-me-quer

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cansado de brincar
Sou Arlequim
Sou Pierrot
Sou Arlequim
Sou Pierrot
Um condenado
Não sou maneiro
Não sou legal
Stay away
Keep out
Sou um sacripanta
Um verme pestilento
Pilantra miserável
Salafrário
Sou um pobre coitado
Medíocre
Não mereço consideração
Não mereço simpatia
Mereço ser zoado
Como um mentecapto
Energúmeno
Badameco
Eu sou a mosca na sua sopa
Eu sou o seu dia de azar
Eu e o diabo temos andado juntinhos
Eu sou a espada em brasa
Se o portal para o paraíso
Só pode ser aberto com sangue
Não haverá piedade


A única coisa que eu quero é morrer
Eu tento e tento morrer
Mas não consigo
Atravesso a rua sem olhar
Testando os meus ouvidos
Ando no meio dos carros
Não quero ser o assassino de mim mesmo
Mas dou fortuna a toda sorte de perigo
As balas perdidas me escapam
As feras selvagens disfarçam
Tento e tento morrer
Mas não consigo
Meto a cara no abismo
Sentado no precipício
Ouço latidos infernais
Ouço gritos
Meto a cara no forno
Respiro gás nocivo
Cruzo linha de trem
Eu mergulho
Muito mais do que isso
Vivo
Arrisco
Me entrego cegamente ao destino
Viver é foda
Morrer é mesmo muito difícil
E eu que quero tanto
Eu tento e tento morrer e não consigo

domingo, 14 de agosto de 2016

Não quero brincadeira
Me deixa trabalhar
Eu quero coisa séria
Bate um revertério
Que me sobe a cabeça
Suspiros nevrálgicos
Me torcem os pinos
E meus sentidos
Estremecem minha cuca

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O que eu tenho que fazer
Se nada que eu quero me é permitido
Se o que eu quero me é negado
Ah minha vida
Por que é assim
Nada do que eu quero me pertence
Ah de tudo que já desejei
O que eu tenho
Por que é assim
O destino diz que nada é meu
Meu amor
Quem vai me amar
Será que a tristeza vai me tirar do amor
Ou o amor vai me tirar da tristeza
Quando eu vou conhecer alguém que vai me amar
Será que alguém vai gostar de mim
Por que eu não conheço ninguém que me ame
Ah tristeza
Qual o meu problema
Será que ninguém pode se apaixonar por mim
Será que eu não posso ser feliz no amor
Será servido o jantar a la mode
A refeição restaurante inclui buffet completo self-service
Entrada de desilusão e expectativa não-correspondente
O prato principal é o meu fígado ao molho de desprezo
Acompanha orgulho e indiferença marinados no medo
Coração partido com pimenta no cu dos outros é refresco
Sobremesa de desgosto profundo
Bebidas a parte

domingo, 7 de agosto de 2016

Toda pessoa carrega um mistério
Acredite tudo é possível
O impossível é o nada
E o nada é inconcebível
Assim como alfa e omega
O infinito
A eternidade
O tempo
Assim como a ausência de todas as coisas
Não é possível por já ser algo
Assim como tudo pode caber numa palavra
E ainda assim não podemos compreender tudo
Inconcebível é o não-possível
Nada é impossível
Tudo isso faz parte do grande mistério de cada um
O nada é a maior dádiva de tudo
A possibilidade de ser
Av. Brasil
És o único caminho
És a verdade e a luz
Nas tuas curvas consolo-me
Quantas distâncias, minha querida, tu me levaste?
Todos os dias eu deslizo no teu colo
E buscando o amanhecer
Sigo ao teu encontro
Ah tua paisagem de asfalto e montanhas
Nos bairros que deixo um pouco do meu olhar
Ah tantas lembranças
Onde poderia ter chegado
Depois de tantas voltas
No teu ir e vir infinitos
Oh tuas retas, Av. Brasil
Subidas e teus novos e antigos viadutos
Passagens de nível
E tua pista lateral
Todos os contornos e tuas passarelas de pedestres
Querem a tua higienização
Há no final de encontrar tua gentileza
Ah por onde me levaste tantas vezes
Minha amada, minha bandida
Te quero nova, te quero lisa
Poder entrar na tua pista seletiva
Como expresso
Ser mais veloz
Ah que BRT nosso destino nos reserva
Canto por ti
Em tantas idas e vindas
Nossos encontros por tantos desejos
Aperto o passo, lá vem o ônibus
Nossa viagem nunca vai ter fim

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Sobe no mar que avança
Oh Poseidon
Espalha as ondas nos rochedos
E afasta o meu barco dos recifes traiçoeiros
Sê o vento certo onde não há farol
Da Estrela Polar ao Cruzeiro do Sul
Guiai-me, soberano dos Sete Mares
Enquanto não houver porto sereno
Muito além do Mar do Meio-da-terra
O seu poderoso sopro abrasando a vela
Para os mares e as marés
Me levando ao distante desconhecido
Caçando horizontes
Muito além do Bojador

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Vencer é o dilema do herói
Manda quem quer mandar
Obedece quem tá no prejuízo
Ao perdedor as batatas
Vencer não dá direito de humilhar o derrotado
Não é digno abusar de quem está ferido
Glória e Vitória são deusas de batalha
Mas eu não sou soldado
Ai Atena
Mas eu sou um camponês
Ai Ártemis
Empunhais o arco melhor que Apolo
Tua seta sempre verterá mais sangue da têmpora dos incautos
Do que as ternurinhas de Afrodite
Sê vilã do meu arado
No meu pasto
No meu peito
Na minha vida
Para os rebanhos peço orvalho nas campinas
Para mim nada preciso
Que a natureza não me possa dar
Pegue a sua mania de nobreza
O seu deslumbre e glamourização do luxo
Porque todo mundo sabe que sua vida é muito mais barata do que isso
Tudo é pouco e nada presta
Feliz por comprar emoções descartáveis
Pegue os seus falsos nobres sentimentos
A sua vaidade, orgulho e soberba
E faça um embrulho bem bonito
Mas bem bonito para não ficar ainda mais feio
Para você decorar a sua pobreza de espírito
O amor passado é uma flor murcha
Que você não tira do vaso
E não me venha falar em bem-me-quer-mal-me-quer
Só faz sentido se perder a cabeça
Quebrar o vaso
E se há paz na terra
Há dor para cura

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Escuridão
Ei, Escuridão
Eu não tenho medo de você
Eu mantenho o meu sorriso
Ah plácido dia
Erga-te
Ah meu caminhar
Noturno
Ei, Escuridão
Você já sentiu medo de alguma coisa?
Como da imensidão dos nossos desejos
Você fica com a espada
E eu com o escudo
Ai o céu azul que vira cinza
Ai a hora augusta que prepõe o dia
A boca aberta para engolir o inesperado
E um inseto vem voando dentro do escuro do quarto
Ei, Escuridão
Eu ainda estou aqui
Você sabe que amanhã de manhã tudo isso acaba
E um dia tudo acaba
Um dia tudo acaba para sempre
Tudo acaba em você

sexta-feira, 29 de julho de 2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Creio em deus-pai-todo-poderoso
Senhor do céu e da terra
Senhor das armas e da guerra
Ele não mata, ele manda matar
Ele anda sobre as águas
Ele é a luz e a escuridão
Eu não ouvi o sino que encerra a luta
No seu reino a morte é a paz

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Me ofenda e estarás arruinado
Respeitar é se proteger
Eu sou a carne podre no dente que você não limpou
Eu sou a penúria
Do amor desprezado
Eu sou a peste e o tumor
Eu sou a ferida que não cicatriza
Eu sou o cheiro de peixe morto
Eu sou o verme na primeira garfada
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o poço sem fundo
Eu sou o cuspe no prato
A comida estragada na geladeira
Eu sou o seu desleixo e a sua falta de consideração
Eu sou a fome, eu sou o ódio
Encarnado nos seus olhos
Eu sou a fruta podre sobre a mesa
Eu sou o medo e o pavor
Escancarado nos seus nervos
Estou cercado de monstros famintos
Mas eu sei guardar segredo
No calor do momento
Me faltaram palavras
Todo mundo quer ser valorizado e encontrar o seu grande amor
Eu que nunca fui casado
Eu que nunca tive filhos
Já tive aventuras fugazes
Já tive inumeráveis deslizes
Eu durmo e acordo sorrindo
Nada pode me arrancar o sorriso do rosto
Quando você vier me matar
Eu vou ficar bem paradinho
No meu sonho eu era assassinado por você
Escolha um amigo para matar você e marque essa pessoa
Eu não vou fugir da morte
A minha hora vai chegar
Ao menos isso você não pode me negar

terça-feira, 26 de julho de 2016

Eu só penso em te encontrar
Por onde anda mulher?
Feiticeira, vem atormentar os meus desejos
Movimento é tua busca
O meu corpo te quer mais
E mais a minha mente te segue
E nesse percurso
Nunca chego a te encontrar

domingo, 17 de julho de 2016

Por onde andarão?
Oh, Musae
Distantes bem longe
Nos montes, nos vales
Nos bosques, nas fontes
Na água, na terra
No ar e no fogo
Palavas e sons
Cantando e dançando
Te amo, te amo
Por onde andarão?
Em Tebas ou Atenas
Além do Atlântico
Por trás das colinas
Cruzando os abismos
Por onde andarão?
Oh, Musae
Na beira das praias
Na margem dos rios
Na altura dos cimos
Cantai, cantai
Oh, Musae
As doces campinas
Os novos horizontes
As flores de cactus
O céu de Brasília
A pedra lançada contra minha cidade
Oh, Musae
Por onde andarão?
Estariam a minha espera?
Cantei, cantei
Ai de mim
Que sou mortal
Tenho a vida na humildade de poder cantar ao vento
Venham, Musae, cantar comigo
E eu vou dançar na chuva

Deixa eu falar coisas no teu ouvido
Pra eu ver se arrepiando
A pele do teu ombro até a nuca
Me deixa ouvir um suspiro teu
Sentir teu fôlego ofegante
Saber a força da tua boca
Deixa minhas mãos percorrerem o teu corpo
Ao prazer desses olhos famintos
Fadados ao fracasso de não te tocar
Distante do cheiro do teu cabelo
Pois é o mesmo do sonho e desejo
Que já me causa sofrimento
A agonia de não gozar suas carícias
VERDADES INCONFESSÁVEIS I

Eu sou inconsequente
Eu sou persona non grata
Eu destruí uma amizade
Traía minha namorada
Eu não sou sensível para perceber
Não sou capaz de ver
Eu pareço inteligente
Mas na verdade eu não passo de um sabidinho
Eu tenho muitas amantes
Meus amigos da juventude me detestam
Faço um pouco de tudo
Mas não sei fazer nada bem
Eu não assumo minha homossexualidade
Eu me acho foda
Mas na verdade sou um merda
Eu não fui porque eu não quis
Eu já humilhei uma empregada doméstica
Eu já cuspi no prato que comi
Eu não gosto de esforço
Eu já persegui uma mulher
Eu já bati numa namorada
Eu finjo gostar de certas pessoas que convivo
Eu detesto acordar cedo

quarta-feira, 13 de julho de 2016

De farinha e água se fez o homem
Com a mão na massa
Sova e sova

Põe mais água
Mexe e coloca mais farinha
Vai-se fazendo o homem com a mão

E sova e sova
Bate a massa e bate mais
E coloca mais farinha na mão do homem

O homem cresce
Prepara o fermento e bate
Bate mais e sova o homem para fazer a massa

A farinha na massa
Vai fazendo o homem
Com o braço forte para bater mais massa

E bota mais farinha
Na mão do homem vai o sal
A farinha e a água vão fazendo o homem

A massa cresce
Prepara o fogo no formo
Deixa descansar a massa pra ela crescer

Aguarda um pouco
Espera o forno aquecer
Coloca a massa para assar no forno

Espera o forno assar bem a massa
O homem espera ficar pronto
E come o pão

E come o pão
Que o deixa mais forte
De farinha e água se fez o homem

sábado, 9 de julho de 2016

Hora a miséria vem fazer uma visita
Hora a fartura
O que é a vida?
O que é o futuro?
O que é a morte?
Hora há fortuna
Hora há bruma
O que é preciso pra ser feliz?

segunda-feira, 4 de julho de 2016

domingo, 3 de julho de 2016

A morte veio fazer uma visita
Jacó disse: Seja bem-vinda!
E a noite foi passear com a morte
Eu bato na porta
Um passo me leva ao abismo
Desço e verifico
Profundo
A porta que se abriu ficou para trás
Desço no vento





sexta-feira, 1 de julho de 2016

De linha e agulha
No furo que passa
No nó que trança
Dá a volta e une

Traça a passagem
No fio que tece
A textura da forma
Que nasce da linha

Malha de tranças
Segue na forma
O fio que passa
Os nós tecidos

A agulha que leva
A linha que entra
Nos nós traçados
No pano de fundo

E fura e fere fundo
A agulha que traça
O tecido que passa
A malha que tece

Textura que forma
A malha de trança
De linha e de nó
No tecido formado

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Hoje eu saí no quintal e vi no jardim
As rosas que tinham florescido
Nessa última lua cheia



sábado, 11 de junho de 2016

Nos olhos de Maria Flor
Mais vivos que os olhos-de-tigre
Reside o poder que emana vida
O olhar esperto faz-te imaginar a pureza
Que habita o mais íntimo do ser
Buscando a verdade aqui de fora
No infinito dos seus olhos
O universo estremesse
O touro fica manso
E o velho rejuvenesce
Seus dedinhos tão pequenos
Com sua fragilidade e força
São delicados e fortes
E sustentam o mundo
O mundo pleno de felicidade
Ontem eu conheci o Amor
O verdadeiro Amor divinal

Quem já abraçou o Amor
E sentiu o seu cheiro de paz

Pode sentir o Amor que faz
O seio da vida simplesmente

Serenar na paz infinitamente
Grande que só o Amor traz

Ao leito do sonho que afinal
Pode trazer a paz do Amor


terça-feira, 7 de junho de 2016

Poder Judiciário do Estado do Meu Coração
Juízo de Direito da Comarca da Capital

Manda a qualquer dos Oficiais de Justiça desde Juízo
Ou quem suas vezes fizer e for este apresentado
Em cumprimento ao presente termo de responsabilidade
Dirija-se ao endereço do requerido

Ação de Obrigação de fazer Indenização
Por Danos Emocionais e Psicológicos
Parte legítima requer quantum razoável
Para liquidação de sentença

O dano afetivo está consubstanciado
Nos aborrecimentos e angústias
Amargadas pelo querelante
Fatos que causaram extrema fragilidade
Diante da frieza do querelado

O dano emocional
Por atingir os sentimentos mais íntimos do ser humano
Prescinde de qualquer comprovação
De ordem material ou concreta
Exigindo-se, em tais situações, tão-somente
A demonstração do fato originador do abalo psíquico
Sendo presumido o prejuízo emocional

Cita-se o suplicado
Para contestar a presente ação no prazo legal
Querendo, com cópia da petição inicial e deste despacho

Consigne-se que, não contestada a presente ação
Se presumirão aceitos como verdadeiros
Os fatos articulados pelo autor

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Difícil é aprender
Que mesmo com todo sofrimento nessa vida
É preciso manter um sorriso no rosto
Ainda que não haja felicidade
É preciso viver com alegria

É mesmo difícil
É difícil aprender a abandonar a dor
Ser feliz
Quando nada mais importa
Ainda na maior tristeza
Há de se viver com alegria


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Caro Manuel,
Eu estudei e escrevi
Não tive filhos
Mas trabalhei
Não tive sequer um amor verdadeiro
Não tenho dinheiro pra comprar felicidade
Pedi abrigo e não tive
Quis uma namorada
Também tive um porquinho-da-índia

O que faz um homem
Se o seu emprego na vida é sofrer
E penar sobre isso

Se nós pudéssemos conversar
Você me contaria tudo aquilo o que não fez
Os poemas que não pode escrever
São de certo os mais belos que nunca li

Temos mais o que não tivemos
Ficamos com aquilo que não aconteceu
Eu nunca fui a Paris
Mas quando eu estou mais triste
Mas triste de não ter jeito
Eu vou a Pasárgada
Pra conversar com você

terça-feira, 3 de maio de 2016

Tendes o dom de me fazer clemente
Minha senhora
Mas se meu penar a mim vos trouxesse
Cegaria meus próprios olhos
Pois de que me serviria a visão
Se não mais vos visse
Cortaria meus pulsos
E acabaria esse poema
Pois de que serviriam minhas mãos
Se não pudessem sentir o vosso corpo

Mas sei que todo sofrer é vão
Caríssima amiga
Se por perto não vos tenho
Tivesse eu escalado montanhas obtusas
Superado penhascos abssais
Ou nadasse distâncias oceânicas
Corresse o risco de mendigar-vos um beijo
E chorar a frente de vossa casa por um afago do vosso sorriso
A mercê de vossos carinhos
De apenas um gesto do vosso olhar

Pois até mesmo o mor desprezo
Minha senhora
Ou toda a dor a que me sujeitassem esses desafios
Na esperança da vossa piedade
Seria capaz de alegrar-me
No clamor dos meus versos
Tão pequena seria a pena dessa penitência
Para sentir o perfume no véu do vosso cabelo
E perder-me no vosso labirinto atrás da orelha
Em busca do enigma do meu desejo

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Onde há hoje o jardim
Antes crescia o mato

Se não há trabalho
Não se vê a obra

Não se ara o solo
E se espalha a hera

Espio uma poda
Avisto um inseto

Escolho uma muda
Refaço o monturo

As folhas no quintal
Juntam-se ao canto

Com o mesmo esmero
Que escavei a terra

E coloquei a semente
Com as minhas mãos

Bem no seio da vida
Sentindo seu corpo

sábado, 30 de abril de 2016

Como mensagens lançadas ao mar
Posto poemas nesta rede social
Dentro das garrafas vão meu penar
E a espera de te encontrar afinal

Nas ondas das praias que chegam
Deixam um pouco do que há em mim
E levam-nas a outras partes onde navegam
Até encontrarem as marés para este fim

Enquanto eu acendo meu cachimbo
Muitas garrafas se perdem no limbo
E vejo todo este lixo inútil acumulado

Quem as encontrar por favor te conte
Dos meus versos pois além do horizonte
Tenho eu copiosamente te procurado
Pobres versos caiados
Na voz de um trovador
Que cantou os meus fados
Naquela noite de horror

Descreveu-me um pesadelo
Que era completamente irreal
Mas o fez com tanto zelo
Que era de fato surreal

Ele apareceu no meu sonho
E cantava maviosamente
Em um tom grave e medonho
Que soava meio demente

Tocava ao seu lado o diabo
Que sorridente e virtuoso
Com a seta na ponta do rabo
Me apontava de olhar curioso

A morte que vos perdoe
Vós sobreviveis ao aborto
Não há mais quem vos abençoe
A morte vos dê conforto

No vosso caminho pedregoso
Restará até o fim da velhice
Deste mundo pernicioso
Cercado de toda a canalhice

No amor sereis humilhado
Da família sereis esquecido
No trabalho sereis descartado
Com vosso talento sereis punido

Com a arte de chorar pelo inútil
E fingir cantar um mundo belo
Tentando levar a vida menos fútil
E ninguém ouvirá vosso apelo

Mas se me permite a intimidade
Nunca conhecerás o amor
Devo falar com toda sinceridade
Sempre estarás mais perto da dor

A ti reserva-se o trabalho duro
De saber muito mais da tristeza
E da saudade que do ouro puro
Pois não conhecerás a riqueza

Não conhecerás o que é a paz
Tua árvore nunca dará fruto
Serás sempre visto como incapaz
Uma gema feia em estado bruto

Depois que acordei convalido
Convencido de que era verdadeiro
Aquele sonho no qual tinha adormecido
Olhei em volta e senti aquele cheiro

De urina fétida exalando na calçada
Oposta a qual eu e os outros dormíamos
Entre o silêncio das sombras na fachada
E outras coisas que não víamos
No âmago do cálice
Se aperta o botão
Que torna o devir

Lá dentro da flor
Nasce um lamento
Que deseja sair

Encolhido no interior
Move-se conciso
Um ponto onifulgente

Lá dentro um motor
Revela uma pétala
Na cor daqui de fora

E esconde uma dor
No perfume que exala
Ao colidir com o nada

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Sou um fracassado
Por que você não me mata?
Foi sujo
Por que você não me envenenou com sua comida?
Envenenou com a discórdia o meu coração
Alimentou a inveja nas minhas fraquezas
Quando ficava andando pela minha casa
Abrindo portas
E vasculhando meus pertences
Foi torpe
Por que o desgosto das mentiras mais sinceras
Ainda são palatáveis nas vezes em que faço café?
E quando abro a porta
Ou quando deito na cama
Então por que você não me mata?
Sou um perdedor
Por que você não me empurrou da escada no dia do seu aniversário
Quando teve a chance?
Foi desonesto
Por que não me sufocou com o travesseiro
Enquanto você dormia ao meu lado?
Você devia ter levado a cabo aquele processo da delegacia
Mas me humilhar foi pouco
Bloquear é seu direito
Difícil é você encarar os seus erros
Quem sabe faltou uma xícara de estricnina
Na receita do bolo que você fez pra mim?
Acho que você se enganou
Foi infame
Você devia ter jogado uma panela de água fervendo na minha cara
Você teve em muitas chances uma faca em suas mãos
Meu pescoço em sua presa
E meu coração servido à mesa
Eu achei que o gás estava vazando na cozinha e fechei
O erro também é meu
Acho que te ouvi batendo no portão
Por que você não me mata?
Ainda escuto a sua voz gritando aqui na frente de casa
Eu não esperava que você me desse aquele soco no nariz
Ainda vejo você chegando na calçada
Por que você não trouxe uma arma?
Sou um nada
Vou amanhecer com a boca cheia de formigas
Você devia ter tacado óleo fervente na minha cara
Você tinha que ter me enforcado com suas próprias mãos
Mas por que você não me mata?

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Eu quero pichar o teu portão
E acertar uma pedra na tua janela
Eu quero tacar cocô na tua varanda
E hackear o teu Facebook

O que pode te fazer chorar?
Será que você vai sofrer?

Eu quero apagar tuas fotos
E colocar chiclete no teu cabelo
Eu quero tacar fogo nos teus vestidos
E mijar no teu travesseiro

O que pode te fazer chorar?
Será que você vai sofrer?

Eu quero arranhar teus cds
E estragar os teus bolos
Eu quero quebrar teus biscuits
E bagunçar tua vida

O que pode te fazer chorar?
Será que você vai sofrer?

Eu quero destruir os teus sonhos
E arruinar tuas lembranças
Eu quero rasgar teus papéis-de-carta
E jogar teu nome na lama

O que pode te fazer chorar?
Será que você vai sofrer?
Se sofro por vossa ausência
Caríssima amiga
É porque de todo sei
Que os penhascos
Que nos afastam
São dolorosos e vãos
Já não podeis mais voltar
O que será do arvoredo
Sem o doce canto das aves
O que mais será do vento
Sem o perfume do teu corpo
Oh minha amiga
Sofro constantemente
Sei de ti não mais que um folhetim
E se por vossas dores
Não sofresse mais e mais
Caríssima amiga
Sofro do ódio que me mantém
Da dor e do medo sofro
Por teu amor permaneço
Se a morte de repente vier a tua alcova
E todo o teu futuro se mostrasse planejado
Sabendo a hora de seu fatal alvitre
Pudera decerto calcular o improvável

É fortuna
É talento
É desfecho desgarrado
Se o que é errado certo está
É deslaço
Evidente
É desterro do passado

Fiquei de olho no esquife atrás da porta
De pé de frente pra vitrine do velório
Decorado dentro do salão da funerária
Esperando por minha lápide ser talhada

O futuro é uma bolha
Que dilata e nunca volta
E o passado é esta folha
Por onde a morte me escolta

E o que deixei pra fazer amanhã?
Ainda pensava em encontrar minha amada
Se o desejo morreu ou é repulsa
Foi maldade que me deixou esperando?

Um rosto aflito na escuridão veio me buscar
Não tenha medo e fique em silêncio
Apenas não vá se machucar
A foice está pendida e não pode mais parar

Não era o que foi
Será que não foi?
Só sei que não sei
Não era o que era

O que fora então?
Não era verdade
Nem era mentira
Fora uma invenção?

Verdadeira mentira
Ou imaginação?
Existiu de verdade
Verdadeiramente?

Falsificação original
Mentira ou verdade
Brincando a fingir-se
De falsa realidade?

Existiu na mentira
Aparente verdade?
Fingindo o que era
Sendo o que não foi

Vero fingimento
Deveras fraudulento
Fantasia real
Ilusão verossímil

Não é o que não foi
O que é falsidade?
Uma fraude ficconal
Forjada no irreal?

Engano de verdade
Na magia da ficção
Que não era mentira
É a pura realidade

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dois torrões de cicuta no meu café, por favor
E um pedaço desse bolo confeitado com chumbinho
Quem sabe alguma realidade me acata
O desejo de sentir algo além dessa vida

Carlos, já separei meu quite para desastres
Antes desse meteóro chegar
Vou emprestá-lo a você
Pois não quero te ver triste

Eu queria um pedaço daquele chocolate
Que as mãos nodosas de uma criança
Lá onde não sei onde colheu
A pureza do cacau
Será que é orgânica
Ou ficcional

Me apressei pra assistir o momento final
Sinto cheiro de osso queimado
E gosto de sangue vivo na boca
Vejo uma coruja me olhando
Descendo seus olhos sobre mim
Dando luz ao meu caminho
Ouço uma lanterna dizer o que será
Vejo um gato no corredor
Sinto frio no umbigo

Me bateu um desespero
Suspende o café e o bolo
Tenho uma Flor na cabeça
Cancela o meu pedido
Põe pra viagem esperança
Que é verde

Me vê um chá
Prefiro a torta de maracujá
Me empresta o fogo
Deixa eu acender meu cigarro
Já vou indo

Da minha janela
Me pego em questionamentos essenciais
São quatro da manhã
Será que meus amigos estão online agora

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Ai do tempo ai do agora
O teu agora não era meu
O meu quando não era teu
Mas teu sorriso faz o meu sorriso
Por muito aviso
Sempre querendo estar presente
Esperando um instante juntos
Por um momento estou de coração partido
Se você não volta mais
Mas teu sorriso faz o meu sorriso
Ai agora ai cuidado
O desejo é incidente
Mas não o motivo do que fora outrora
Se ainda o nosso encontro seja duradouro
Pra que aconteça a nossa vez
Pois se você se fosse para sempre
A tristeza seria minha nova companhia
Mas o teu sorriso faz o meu sorriso
E por você morro de alegria
Ai da vontade ai do querer
Se não morro de prazer
Sofro de imensa agonia
Nesse mundo se há destino
Que me mostre a verdade
Pra que todo meu carinho
Tenha o poder de confirmar
Que ainda será realidade nossa união
Ai infinito ai possibilidade
Se algo acontece a você
Não sei mais o que faço
Ficará dentro de mim
Por toda eternidade
Esse sentimento vasto
De enfim estar ao seu lado
E se assim não for
Que não seja pecado
Te amar no meu canto
Te sentir perto de mim
Mas teu sorriso faz o meu sorriso
E se um dia você for mesmo embora
Perderei o juízo
Por ficar longe de ti
Ai do futuro ai da saudade
Nesse imenso e vasto universo
A graça há de prover nossa passagem
E que o tempo passe para além das contas
Esse amor nunca se acabe

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Lido com tantos algoritmos de sentenças
Almejando que reapareçam presenças
Colidindo em visões puramente irracionais
Das mais dinâmicas imagens ficcionais  

Pessoas passam suspensas em seus ensejos
Parando na atração que exercem seus desejos
Exauridas permanecem repetindo seus afazeres
E sem tempo continuam abdicando dos prazeres

Mas é que perdidas vão inconscientemente
Poder gozar da mais concreta irrelevância
Em relação ao comportamento insistente
De se manterem na mais completa ignorância

Quantos desejos transbordam felicidade
Ao prazer de realizar a própria imaginação
Em deixar sentir a pérola da legitimidade
Emergir o motivo de nova contemplação
Como pode uma praça
Ser praça
Sem um banco público
Nessa cidade já tão cinza
Triste Praça João Pessoa
Sabe-se o que é mais útil
Uma praça sem praça
Uma praça que é a encruzilhada
Da Mem de Sá com a Gomes Freire
Esquinas de onde os bancos foram arrancados
Para que os bares ganhassem metros quadrados gratuitos
Onde os livres espaços não podemos ocupar sem pagar
Aonde está o parquinho?
Não tem um balanço colorido
Não tem gangorra
Nem um banco sequer
Nem um banco de jardim
Nem jardim
Nem um banco de concreto
Para que os bares encham os cofres dos bancos
Quantos cacos
De uma confiança exagerada
Quase infantil

terça-feira, 22 de março de 2016

Certa vez conversava com meu avô
Certo de querer saber e curioso
Pois que ele por a mais b me provou
Como viver é algo deveras espantoso

Apenas o fraco ventilador quebrava
O ar parado e silêncioso do quarto
Já ali velho e deitado em sua cama
Com sua calma me inspirava estas palavras

O que é viver a vida? eu lhe perguntava
E para um homem que já sofreu o infarto
Manter o coração batendo é apenas o drama
De querer evitar dar o corpo devorado às larvas

De pronto respondeu: a vida não é esta aqui
E neste momento me vi pequeno em seu colo
Quando você pensa que sabe o que é isso aí
Já está mais do que pronto a ir para o solo

Ter o avô Marinósio nunca espantou
Ouvindo desde muito cedo o conforto
Que esse nome provocava me encantou
E nesse pensamento me perdi absorto

Mar de onde vêm todas estas memórias
Toda uma vida que desconheço as histórias
Marinósio que te faz viver a vida que te leva
Nesse mar de tanto passado que amar é revela

Se a vida é como a chama de uma vela
Ou o leme do barco no mar que se eleva
Quem vive está aberto ao seu desatino
E em começar a remar dita o seu destino

sexta-feira, 4 de março de 2016

Batamos palmas para espantar os corvos
E façamos brinde aos que me querem ver humilhado
Aplandamos os que me querem ver como os porcos
Pois se eu fosse Judas não teria sido mais malhado

Salvemos os louros para aqueles espirituosos
Que quando eu fui cachorro-morto me chutaram
Que quando precisei de carinho me pisaram
E para você que me coroou com ramos espinhosos

Batamos palmas pois os urubus se amontoam
Em torno do que resta do meu decrépito corpo
E saudemos um viva para aqueles que não perdoam
Quando já ferido e fraco não me finjo de morto

Desejemos toda sorte aos que têm-me enxovalhado
E aos que me enganaram por meios auspiciosos
Reservemos toda a glória aos fortes e impiedosos
Que não sentem remorso por terem-me achincalhado

terça-feira, 1 de março de 2016

Nascerá uma Flor no coração de toda gente
Que conhecer a poesia do teu ser
Flor que primeiro é Maria
E também é Flor
No encanto do teu nome
Floresce a vida de um sorriso

Sendo Maria
Nascerá brava e destemida
Por ser Flor
Nascerá delicada e graciosa

Por ser Maria Flor
Quem dirá de seu destino
Será o Amor

No pranto
Há uma prece
Roda Fortuna
Baila Maria
Nascerá Maria Flor
Alegria em nossas vidas

Meus versinhos tão singelos
São pra mostrar que o Amor
É tão simples quanto Maria Flor

Por ser Maria
Nos seus olhos
Reconhecerá a compaixão

Sendo Flor
Da mais pura natureza
Revelará toda a caridade

Maria Flor
No teu colo
Pai & Mãe terão abrigo
No conforto do perfume de uma Flor
No aconchego do abraço de Maria
Sob a égide do Amor de Maria Flor

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Com apreço, em homenagem ao aniversário do poeta Felipe Vital,

Não há presente melhor
Do que aquele que se pode escrever
No entanto, um tanto quanto pior
Se não se sabe o que fazer

A fim de presentear um poeta
Arrisco-me a escrever-lhe um soneto perfeito
Talento a que me dedico como asceta
Em busca do verso perfeito

Do grande sonetista
Que nesta data completa anos
Enalteço a alma de artista

Que domina a clássica tradição
Da difícil arte de escrever
Versos rimados com perfeição
QUATRO POEMAS DE CARNAVAL
E UM DE CINZAS

SÁBADO

A madrugada de sábado começa na noite de sexta
E há tantos desejos omitidos esperando um endereço
Que pode-se ouvir os gemidos da medonha besta
Farejando carne crua por debaixo do seu adereço

A loucura dos foliões contagia as esquinas
Apinhadas de gentes repletas de anseios
Dos quais na pureza de pênis e vaginas
Lançam bocas nas bocas e seios

Cada um sabe como se divertir nestes dias
Nas ruas, nas praças, nos largos,  à vontade
Deixam-se comover com as risadas mais vadias
Comprometendo-se apenas com a liberdade

Nas brincadeiras todos chafurdam em fantasia
Os sonhos afloram à pele e à permissividade
É imposto apenas o limite do senso de igualidade
Para que tudo se destine ao sabor da alegria



DOMINGO

A morte do dia é o renascimento da noite
No verso da manhã seguinte ouve-se ainda um canto
Vestindo-se de flores em vida
Nunca mais morrerás e então serás eterno

Há lixo entre confete e serpentina
A lama já tomou conta das ruas
O sol já queimou a nossa cara
E nossos corpos cobertos de purpurina

Não houve riso que não desatasse em gargalhada
No meio das maravilhosas fantasias
Disfarses que nos mostram como somos
Fugindo da crueldade do dia-a-dia



SEGUNDA-FEIRA

Palhaços, sereias, mariachis, piranhas
Cordões, blocos, agremiações e amigos
Freiras, cowboys, gogo boys, boys magia
Fadinhas, egípcios, você mesmo, gladiadores romanos
Imperadores, generais, doidos, mendigos
Pacientes, médicos, enfermeiras
Bailarinas, índios, policiais, passistas
Cangaceiros, samurais, melindrosas
Deuses, mortos-vivos, pelados
Beija-flores, onças, bois-tolos
Diabo e Inri-Cristo
Marajás, odaliscas, Cleópatra
Mosqueteiros, piratas, Don Juan
Arlequim, Pierrot, Colombina
Zebras, cobras, bodes, cães, gatas, cavalos e girafas
Saída de banho, políticos, ninfas e sátiros
Bebês, princesas, personagens mais diversos
Todos se lançando na folia
Brincando carnaval



TERÇA-FEIRA

A loucura é a cura
O fim do mundo
O dia que as pessoas esperam o ano inteiro
Um dia para sanar tudo pretendido
Desejos, vontades e afetos mal correspondidos
Tudo se acaba amanhã

Amanhã se dirá não houve nada
Tudo foram sonhos coletivos
Deixando-se levar
Seguindo o bloco
Seguindo o som
Sentindo o orvalho da madrugada na grama do Aterro
Sentindo o sereno da madrugada na cabeça
Na cabeça os melhores instintos
Na alma os maiores encantos

Tudo se acaba amanhã
No peito um cravo enterrado
Na cabeça uma tiara, uma coroa, uma coroa de flores
Estrelas na cabeça e chifres
Nos olhos brilho
No peito brilho
No corpo brilho
Brilho muito brilho
Na pele
Na alma
Brilho

E tem mais ano que vem
Tudo se acaba amanhã
E amanhã já será outro dia
Quando ainda haverá mais purpurina

Paz de realizar desejos
Vontade de ir aonde for
Seguindo os olhares e sorrisos
Festejando o desconhecido
Contrariando os preceitos
Quebrando a ordem mundial
Destruindo a família tradicional
E zombando na cara dos recalcados

O sucesso superou o fracassado
A mulher em andrajos era o rei
O fraco virou forte e ao perdedor também se ofertará os louros
O mendigo ofereceu o baquete
Aos convidados transantes que passavam
Percorrendo o Aterro
Descendo e subindo Santa
Pulando na Lapa
Festejando no Largo
Gritando na Praça

Alegria
Tudo se acaba amanhã
Fantasia

Seguiu o dia
Rompeu a noite
Virou madrugada

Não houve passado
Tudo se acaba amanhã
Não haverá desespero
Muito riso e alegria se fará eternamente
Muito amor em beijos ardentes e molhados
Abraços apertados em peles quentes e macias
Olhares profusos nos corpos alheios
Piadas, risadas e muita cantoria
Muita batucada
Muita cantoria
Muita batucada
Brilho, carinho de amor e alegria

Amanhã tudo se acaba
Tudo se acaba amanhã



QUARTA DE CINZAS

Nas tempestades que venho
Enfrentando dentro de mim
Das maiores tristezas que tenho
A pior não é dor do fim

O real desejo é perecer
E não sofrer esse penar
Dos enganos que finjo acreditar
Quando não é mentira o viver

E é na manhã de quarta
Que se guarda a fantasia
Na alma em satisfação farta

Em prazer o corpo se conforta
Sem aflições ou agonia
Tem-se a consciência morta

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Talvez escrevesse um poema
Não houvesse tantas grades
Tantas cercas
Tantas grades que nos prendem
Cercas de arame farpado

Elas não nos afastam da violência
Elas são a violência
Elas denunciam a pobreza
Denunciam a necessidade de uma pessoa ter que pular a grade para entrar no trem
A necessidade de uma pessoa pular o muro com arame eletrificado para entrar na sua casa
A necessidade de ter o que ele não tem

Vai fazer o que for
A primeira coisa que vai tirar de você
É o que ele não tem
Dignidade e respeito
A vida é o meu filme
Da chuva pra coroar
A primavera sublime
Gravado com celular

Uma nesga fio de lume
Culminando no monte
Na virada o horizonte
Do topo do alto cume

O aqui feito de agora
No exagero da hora
Prece que ultrapassa

Aqui o efeito demora
Quase como que piora
Pressa de obter graça



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Asas de borboleta

Uma borboleta sem asas não é uma lagarta
Quando se tiram as asas de uma borboleta
Ela não é mais uma borboleta
É uma borboleta sem asas

Uma borboleta morre sem asas
As asas não tornam uma lagarta em borboleta
Uma borboleta sai do casulo para receber asas
O casulo é o sarcófago da lagarta

O casulo está para a lagarta
Assim como as asas estão para a borboleta
Lagartas se metamorfoseiam em borboleta
Morre a lagarta que renasce para voar

Quando se tira uma borboleta das asas
As asas sem uma borboleta continuam sendo asas
Ainda que destituídas de sua função de serem asas
As asas não voam sem uma borboleta