segunda-feira, 30 de junho de 2014

Somos filhos do lixo
Esses filhos da puta do século 19
Inventaram tudo
Que seriamos
À favor
Ou contra.
A alfazema que plantei morreu
Ficou o perfume
Os galhos secos

De que adianta
Todas as flores
A alfazema que eu plantei morreu

O mundo
Não é da minha alçada
No máximo
Minha calçada
O mundo não me pertence
Ainda
No meu quintal
Colho frutos
Como ervas
Cheiro rosas

Apenas
Fiz do local
Meu canto
O mundo que posso
Tocar
O alcance global
Ocular
Não tenho mais do que todo mundo
Melhor eu faço
Do meu lugar
Onde estiver
Vênus
Faça-me o favor
Sai de peixes
Não aguento mais tamanha dor

Eu sei que me persegue
O teu encanto atordoante
Eu fingo que não noto
O golpe doloroso

Meu pedido de afastar-te
Não aguento mais tantas confusões
Tantas noites de choro
Sem nenhuma resposta
Tanto canto e tanta lira

Vênus
Em peixes
Não me deixa em paz
Ardiloso teu enlace
Alrisha
No quadrante tão escasso
Algo surge como solução
A este imundo solidário.
Há mais douda perdição
Do que ser tão solitário?

Quando ando desiludido
Precisando de estímulo.
Confuso deparo decidido
De pé: encaro meu túmulo!
 
A morte leve, me chamando.
Dá-se um breve colóquio
Sobre esta minha condição.

Poesia me clama chorando:
— Confessa neste solilóquio
Teu desejo de ser redimido.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Não to procurando ninguém
Mas trato bem quem desejo com interesse
Quero ser de todos que me amam
Vejo todo dia um encanto
Há no meu caminho dia-a-dia
Um roseiral que detém meus olhos

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Só é possível ser feliz encontrando
No nosso cinismo e ceticismo
O equilíbrio entre ironia e hipocrisia
Ninguém quer um maldito mendigo fedorento por perto
Puta que pariu
Me dá pena
Mas nem olho pra ele
Prefiro não olhar
E fingir que ele não está ali
Mas na verdade sei que ele tá ali
É que faz parte dele estar ali
Ele podia não estar
Em nenhum outro lugar senão ali
Por ser humano
O que ele tem dentro dos olhos
Que me toca dentro do peito

As calçadas são lixeiras
Os boeiros entopem
As latrinas transbordam

Quando dou meus passos
Escolho onde eu piso
Olhando para o chão

A vida se esvai meu vômito
Assim me vejo por dentro
O que me botei pra fora

Naquele leito vazio
Corre o esgoto pra vala
Mostrando meu caminho

domingo, 1 de junho de 2014

Eu sempre pego 397 pela madrugada
Entre duas e quatro da manhã
Próximo ao Largo da Carioca
Aguardo falido na Avenida Chile
Como muitas outras pessoas
Que dependem do transporte público
Para transitar pela cidade
Na madrugada a espera pode durar
Sou mesmo um vagabundo madrugador
Muitas pessoas saem do trabalho
Enquanto eu volto da Lapa
Vejo as gentes desesperadas
Nos pontos da Central
Doidas para retornar a suas belas casas
Óbvio que a maioria não são de longe belas
E com elas bem feitas as sonhariam assim
E assim então o repouso é reconfortante
Do trajeto que se faz pela Avenida Brasil
Na velocidade constante dos pontos vazios
As pistas livres proporcionam ótima locomoção
A hora se passa veloz nas luzes da cidade
Da Maré até Bangu demora cerca de uma hora
E o ônibus permanece sempre cheio do cansaço
Durante o dia chega três horas pela pista lateral
Uma viagem de Campo Grande até o Centro no ônibus parador
Nume

A poesia veio fazer uma visita
Ninfas, sereias, nereidas e melíades
Plêiades, náiades, corícias e hespérides
Padma era a mais bela ninfa

Mais vale a poesia de um louco
Que as palavras de um rei
Mais vale a poesia de um louco
Que as palavras de um juiz

A poesia veio para dizer
Que ela está em tudo
Antes de tudo
Poesia



Venho nessa margem
Pedir para a cidade um canto
Entre-limite
Centro-oeste
Meio-do-nada
Na-da
Entre-ponto
Canto cidade
Um canto

O que quero de ti
Cantarei
Cantarei
Para ti
Oh cidade
Minha doce

Venho marginal
Venho cansado
Venho sozinho
Sonhos milhões

Abraço a cidade
A cidade é tudo
Eu sou pequenino
Quero a cidade

Canto a cidade
Vai cidade
Te pertenço
Não me deixe
Arrabaldes
Sertão carioca
Aqui começou um roçado
O que sobrou dele

Pra lá de cá
Ancestral lembrança
Se perdeu nos avanços

Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande

Depois do antes
Havia uma igreja
E também um engenho
E também um rio
A estrada veio para trazer à Santa Cruz

Mas o que trouxe
Morte

Cidade nossa
Subúrbio
Longe de alcance

Antes habitava por essas bandas
Poesia
Pura poesia condensada
Tocada para ser esperança depois

Antes do antes
Não me lembra
Ainda precisa ser inventado

Ainda vejo cavalos e carroças que passam por aqui
Ligações seculares
Cada vez mais distantes da côrte
Mas ainda vejo o chicote batendo

Me afastando cada vez mais para longe
No tempo
Sobre os trilhos

Nos arreios
Vou eu