Pobres versos caiados
Na voz de um trovador
Que cantou os meus fados
Naquela noite de horror
Descreveu-me um pesadelo
Que era completamente irreal
Mas o fez com tanto zelo
Que era de fato surreal
Ele apareceu no meu sonho
E cantava maviosamente
Em um tom grave e medonho
Que soava meio demente
Tocava ao seu lado o diabo
Que sorridente e virtuoso
Com a seta na ponta do rabo
Me apontava de olhar curioso
A morte que vos perdoe
Vós sobreviveis ao aborto
Não há mais quem vos abençoe
A morte vos dê conforto
No vosso caminho pedregoso
Restará até o fim da velhice
Deste mundo pernicioso
Cercado de toda a canalhice
No amor sereis humilhado
Da família sereis esquecido
No trabalho sereis descartado
Com vosso talento sereis punido
Com a arte de chorar pelo inútil
E fingir cantar um mundo belo
Tentando levar a vida menos fútil
E ninguém ouvirá vosso apelo
Mas se me permite a intimidade
Nunca conhecerás o amor
Devo falar com toda sinceridade
Sempre estarás mais perto da dor
A ti reserva-se o trabalho duro
De saber muito mais da tristeza
E da saudade que do ouro puro
Pois não conhecerás a riqueza
Não conhecerás o que é a paz
Tua árvore nunca dará fruto
Serás sempre visto como incapaz
Uma gema feia em estado bruto
Depois que acordei convalido
Convencido de que era verdadeiro
Aquele sonho no qual tinha adormecido
Olhei em volta e senti aquele cheiro
De urina fétida exalando na calçada
Oposta a qual eu e os outros dormíamos
Entre o silêncio das sombras na fachada
E outras coisas que não víamos
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