segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Derrubo cinzeiro
Derramo copo
Queimo a comida

Escrevo errado
Erro na medida
Perco o senso

Esqueço o tempo
Sinto o vento
Olho pro nada

Queimo a camisa
Tropeço no nada
Sinto o perigo

Penso no nada
Calo meu canto
Caio no vazio

Derramo bebida
Derrubo cinza
Parto no navio

Navio em chamas
No meio do furacão
Todo meu sonho

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O amor tá na carne
No físico
O amor tá no táctil físico da carne
O amor é como a fome
E o prazer de comer
Começa na visão
Depois os aromas
Enfim no paladar
E o tato
O amor é um belo churrasco

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Atração corpórea pela sua presença física existencial
Quando você é iniciado
Cresceu na cozinha
Observando sua avó
Sua mãe e suas tias trabalharem
Na cozinha a vida começa
Sabor vem de saber
Saber é provar
Conhecer
E fazer a comida
Preparar
Fazendo antes
Escolhendo os melhores ingredientes
Conhecendo os temperos
Taste que me lembra testar
Testa é cabeça
Cabeça é capta
Captar é perceber
Perceber é estar aberto a experimentar
Captar com as papilas gustativas
Degustar
Gostar
Comedere
Comer é a maior trajetória do ser
Pode ser sua tragédia
Mas também comédia
Sentar-se junto
Compartilhar
Comida vai para o lixo
Comida vem da terra
Comida é a morte
Nunca paramos de comer
Comemos até morrer
Somos insaciáveis
De comida e de morte
A fartura de comida te enobrece
A escassez de comida te enlouquece
Comida serve ao rico e serve ao povo
Os comensais são todos iguais
A comida estraga
A comida é desperdiçada
A comida apodrece
Os restos de comida
São comida não comida
Todo mundo gosta de comer em pratos limpos
O Brasil foi descoberto a troco de temperos
E pra temperar comida cruzaram meio mundo
O homem mata por comida
Atravessa distâncias no tempo
No espaço, na vida, atrás de comida
Comer nos faz esquecer que existimos para outras coisas além de comer
Nos faz esquecer a vida que levamos
Vivemos para comer
Ou comemos por que vivemos?
Eu nunca saberia dizer certas coisas se não fosse a escrita
Essas letras que me custou tanto aprender
Quantos cabeçalhos e cadernos de caligrafia
Pra quem você canta?
Tripulante no convés é marujo
Existe um trabalho sujo e alguém precisa fazê-lo
Qualquer um poderia mas ninguém quer

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ah o amor
O desejo
A paixão
O querer

Ah olhos nos olhos
Na pela
Na nuca
Na púbis

Ah paz na terra
No corpo
Na alma
Na vida


A noite deixa
Chegar a estrela da manhã
Os pássaros chamam
Os raios de luz

A claridade vem
E o teu sorriso me chama
No fundo dos teus olhos
Me afogo na imensidão azul

Ah os olhos glaucos de Atena
Fazem inveja até mesmo em Afrodite
Quem sabe fazendo uma novena
No meu amor ela acredite

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Querem reprimir o canto
De onde vem o canto
Que irrompe a ira dos outros
O meu canto é apenas um lamento
Eu não sei fugir
Eu encaro
Eu parto pra cima
Eu corro pra briga
Eu quero é ver o circo pegar fogo
É tiro
Porrada
E bomba
Eu quero é ver sangue
Ah limpeza
Tudo começa e termina no asseio
Não é apenas limpar
Mas limpar bem
Madrugada
Você quer o meu amor?
To mais solitário que a estrela do Botafogo
Ando e ando longe mas pareço de olhos fechados
Não estou a procura de nada
Para apenas matar o meu desejo
Ai das minhas horas extras aqui na terra
Se eu to no mundo a passeio
Se eu durmo até meio-dia
Se eu trabalho para não ganhar
É inútil lutar
Se já se está vencido?

Quando chega o fim da noite escura
E você quer abraçar alguém
Você se sente com medo
O seu ônibus não passa
E você quer ir pra casa
Todos os seus amigos estão sorrindo
Menos você
A noite é escura
A noite passa
Você não pode se esconder
Você quer deitar sua cabeça
No colo do seu amor
Mas ninguém procura por você
E quem você quer que sente do seu lado
Nunca vem
Mais um dia passa o seu passo solitário
Você se senta olhando para o nada
E nem o horizonte responde
Há sim um destino a sua espera
Você vai deixando o ônibus te levar pra casa
Mas a única coisa que você quer é morrer

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Mãe, mãe
Aquilo é um adulto?
É sim, meu filho
Aquilo é um adulto
E por que ele está vestido com aquelas roupas?
Elas se chamam uniforme de trabalho
Muitos têm que usá-los para cumprir suas tarefas
E por que eles estão andando tão depressa?
Porque eles precisam por comida em suas mesas
E pagar suas contas
E de que maneira eles fazem isso, mãe?
Superando seus esforços a cada dia
Porque precisam se manter vivos
E dar de comer aos seus filhos
Agora eu vou te deixar aqui na escola
E volto mais tarde pra te buscar
Quando sair do meu trabalho

Bem-te-vi cantou na acerola
Bem-me-quer
Mal-me-quer

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cansado de brincar
Sou Arlequim
Sou Pierrot
Sou Arlequim
Sou Pierrot
Um condenado
Não sou maneiro
Não sou legal
Stay away
Keep out
Sou um sacripanta
Um verme pestilento
Pilantra miserável
Salafrário
Sou um pobre coitado
Medíocre
Não mereço consideração
Não mereço simpatia
Mereço ser zoado
Como um mentecapto
Energúmeno
Badameco
Eu sou a mosca na sua sopa
Eu sou o seu dia de azar
Eu e o diabo temos andado juntinhos
Eu sou a espada em brasa
Se o portal para o paraíso
Só pode ser aberto com sangue
Não haverá piedade


A única coisa que eu quero é morrer
Eu tento e tento morrer
Mas não consigo
Atravesso a rua sem olhar
Testando os meus ouvidos
Ando no meio dos carros
Não quero ser o assassino de mim mesmo
Mas dou fortuna a toda sorte de perigo
As balas perdidas me escapam
As feras selvagens disfarçam
Tento e tento morrer
Mas não consigo
Meto a cara no abismo
Sentado no precipício
Ouço latidos infernais
Ouço gritos
Meto a cara no forno
Respiro gás nocivo
Cruzo linha de trem
Eu mergulho
Muito mais do que isso
Vivo
Arrisco
Me entrego cegamente ao destino
Viver é foda
Morrer é mesmo muito difícil
E eu que quero tanto
Eu tento e tento morrer e não consigo

domingo, 14 de agosto de 2016

Não quero brincadeira
Me deixa trabalhar
Eu quero coisa séria
Bate um revertério
Que me sobe a cabeça
Suspiros nevrálgicos
Me torcem os pinos
E meus sentidos
Estremecem minha cuca

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O que eu tenho que fazer
Se nada que eu quero me é permitido
Se o que eu quero me é negado
Ah minha vida
Por que é assim
Nada do que eu quero me pertence
Ah de tudo que já desejei
O que eu tenho
Por que é assim
O destino diz que nada é meu
Meu amor
Quem vai me amar
Será que a tristeza vai me tirar do amor
Ou o amor vai me tirar da tristeza
Quando eu vou conhecer alguém que vai me amar
Será que alguém vai gostar de mim
Por que eu não conheço ninguém que me ame
Ah tristeza
Qual o meu problema
Será que ninguém pode se apaixonar por mim
Será que eu não posso ser feliz no amor
Será servido o jantar a la mode
A refeição restaurante inclui buffet completo self-service
Entrada de desilusão e expectativa não-correspondente
O prato principal é o meu fígado ao molho de desprezo
Acompanha orgulho e indiferença marinados no medo
Coração partido com pimenta no cu dos outros é refresco
Sobremesa de desgosto profundo
Bebidas a parte

domingo, 7 de agosto de 2016

Toda pessoa carrega um mistério
Acredite tudo é possível
O impossível é o nada
E o nada é inconcebível
Assim como alfa e omega
O infinito
A eternidade
O tempo
Assim como a ausência de todas as coisas
Não é possível por já ser algo
Assim como tudo pode caber numa palavra
E ainda assim não podemos compreender tudo
Inconcebível é o não-possível
Nada é impossível
Tudo isso faz parte do grande mistério de cada um
O nada é a maior dádiva de tudo
A possibilidade de ser
Av. Brasil
És o único caminho
És a verdade e a luz
Nas tuas curvas consolo-me
Quantas distâncias, minha querida, tu me levaste?
Todos os dias eu deslizo no teu colo
E buscando o amanhecer
Sigo ao teu encontro
Ah tua paisagem de asfalto e montanhas
Nos bairros que deixo um pouco do meu olhar
Ah tantas lembranças
Onde poderia ter chegado
Depois de tantas voltas
No teu ir e vir infinitos
Oh tuas retas, Av. Brasil
Subidas e teus novos e antigos viadutos
Passagens de nível
E tua pista lateral
Todos os contornos e tuas passarelas de pedestres
Querem a tua higienização
Há no final de encontrar tua gentileza
Ah por onde me levaste tantas vezes
Minha amada, minha bandida
Te quero nova, te quero lisa
Poder entrar na tua pista seletiva
Como expresso
Ser mais veloz
Ah que BRT nosso destino nos reserva
Canto por ti
Em tantas idas e vindas
Nossos encontros por tantos desejos
Aperto o passo, lá vem o ônibus
Nossa viagem nunca vai ter fim

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Sobe no mar que avança
Oh Poseidon
Espalha as ondas nos rochedos
E afasta o meu barco dos recifes traiçoeiros
Sê o vento certo onde não há farol
Da Estrela Polar ao Cruzeiro do Sul
Guiai-me, soberano dos Sete Mares
Enquanto não houver porto sereno
Muito além do Mar do Meio-da-terra
O seu poderoso sopro abrasando a vela
Para os mares e as marés
Me levando ao distante desconhecido
Caçando horizontes
Muito além do Bojador

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Vencer é o dilema do herói
Manda quem quer mandar
Obedece quem tá no prejuízo
Ao perdedor as batatas
Vencer não dá direito de humilhar o derrotado
Não é digno abusar de quem está ferido
Glória e Vitória são deusas de batalha
Mas eu não sou soldado
Ai Atena
Mas eu sou um camponês
Ai Ártemis
Empunhais o arco melhor que Apolo
Tua seta sempre verterá mais sangue da têmpora dos incautos
Do que as ternurinhas de Afrodite
Sê vilã do meu arado
No meu pasto
No meu peito
Na minha vida
Para os rebanhos peço orvalho nas campinas
Para mim nada preciso
Que a natureza não me possa dar
Pegue a sua mania de nobreza
O seu deslumbre e glamourização do luxo
Porque todo mundo sabe que sua vida é muito mais barata do que isso
Tudo é pouco e nada presta
Feliz por comprar emoções descartáveis
Pegue os seus falsos nobres sentimentos
A sua vaidade, orgulho e soberba
E faça um embrulho bem bonito
Mas bem bonito para não ficar ainda mais feio
Para você decorar a sua pobreza de espírito
O amor passado é uma flor murcha
Que você não tira do vaso
E não me venha falar em bem-me-quer-mal-me-quer
Só faz sentido se perder a cabeça
Quebrar o vaso
E se há paz na terra
Há dor para cura

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Escuridão
Ei, Escuridão
Eu não tenho medo de você
Eu mantenho o meu sorriso
Ah plácido dia
Erga-te
Ah meu caminhar
Noturno
Ei, Escuridão
Você já sentiu medo de alguma coisa?
Como da imensidão dos nossos desejos
Você fica com a espada
E eu com o escudo
Ai o céu azul que vira cinza
Ai a hora augusta que prepõe o dia
A boca aberta para engolir o inesperado
E um inseto vem voando dentro do escuro do quarto
Ei, Escuridão
Eu ainda estou aqui
Você sabe que amanhã de manhã tudo isso acaba
E um dia tudo acaba
Um dia tudo acaba para sempre
Tudo acaba em você