QUATRO POEMAS DE CARNAVAL
E UM DE CINZAS
SÁBADO
A madrugada de sábado começa na noite de sexta
E há tantos desejos omitidos esperando um endereço
Que pode-se ouvir os gemidos da medonha besta
Farejando carne crua por debaixo do seu adereço
A loucura dos foliões contagia as esquinas
Apinhadas de gentes repletas de anseios
Dos quais na pureza de pênis e vaginas
Lançam bocas nas bocas e seios
Cada um sabe como se divertir nestes dias
Nas ruas, nas praças, nos largos, à vontade
Deixam-se comover com as risadas mais vadias
Comprometendo-se apenas com a liberdade
Nas brincadeiras todos chafurdam em fantasia
Os sonhos afloram à pele e à permissividade
É imposto apenas o limite do senso de igualidade
Para que tudo se destine ao sabor da alegria
DOMINGO
A morte do dia é o renascimento da noite
No verso da manhã seguinte ouve-se ainda um canto
Vestindo-se de flores em vida
Nunca mais morrerás e então serás eterno
Há lixo entre confete e serpentina
A lama já tomou conta das ruas
O sol já queimou a nossa cara
E nossos corpos cobertos de purpurina
Não houve riso que não desatasse em gargalhada
No meio das maravilhosas fantasias
Disfarses que nos mostram como somos
Fugindo da crueldade do dia-a-dia
SEGUNDA-FEIRA
Palhaços, sereias, mariachis, piranhas
Cordões, blocos, agremiações e amigos
Freiras, cowboys, gogo boys, boys magia
Fadinhas, egípcios, você mesmo, gladiadores romanos
Imperadores, generais, doidos, mendigos
Pacientes, médicos, enfermeiras
Bailarinas, índios, policiais, passistas
Cangaceiros, samurais, melindrosas
Deuses, mortos-vivos, pelados
Beija-flores, onças, bois-tolos
Diabo e Inri-Cristo
Marajás, odaliscas, Cleópatra
Mosqueteiros, piratas, Don Juan
Arlequim, Pierrot, Colombina
Zebras, cobras, bodes, cães, gatas, cavalos e girafas
Saída de banho, políticos, ninfas e sátiros
Bebês, princesas, personagens mais diversos
Todos se lançando na folia
Brincando carnaval
TERÇA-FEIRA
A loucura é a cura
O fim do mundo
O dia que as pessoas esperam o ano inteiro
Um dia para sanar tudo pretendido
Desejos, vontades e afetos mal correspondidos
Tudo se acaba amanhã
Amanhã se dirá não houve nada
Tudo foram sonhos coletivos
Deixando-se levar
Seguindo o bloco
Seguindo o som
Sentindo o orvalho da madrugada na grama do Aterro
Sentindo o sereno da madrugada na cabeça
Na cabeça os melhores instintos
Na alma os maiores encantos
Tudo se acaba amanhã
No peito um cravo enterrado
Na cabeça uma tiara, uma coroa, uma coroa de flores
Estrelas na cabeça e chifres
Nos olhos brilho
No peito brilho
No corpo brilho
Brilho muito brilho
Na pele
Na alma
Brilho
E tem mais ano que vem
Tudo se acaba amanhã
E amanhã já será outro dia
Quando ainda haverá mais purpurina
Paz de realizar desejos
Vontade de ir aonde for
Seguindo os olhares e sorrisos
Festejando o desconhecido
Contrariando os preceitos
Quebrando a ordem mundial
Destruindo a família tradicional
E zombando na cara dos recalcados
O sucesso superou o fracassado
A mulher em andrajos era o rei
O fraco virou forte e ao perdedor também se ofertará os louros
O mendigo ofereceu o baquete
Aos convidados transantes que passavam
Percorrendo o Aterro
Descendo e subindo Santa
Pulando na Lapa
Festejando no Largo
Gritando na Praça
Alegria
Tudo se acaba amanhã
Fantasia
Seguiu o dia
Rompeu a noite
Virou madrugada
Não houve passado
Tudo se acaba amanhã
Não haverá desespero
Muito riso e alegria se fará eternamente
Muito amor em beijos ardentes e molhados
Abraços apertados em peles quentes e macias
Olhares profusos nos corpos alheios
Piadas, risadas e muita cantoria
Muita batucada
Muita cantoria
Muita batucada
Brilho, carinho de amor e alegria
Amanhã tudo se acaba
Tudo se acaba amanhã
QUARTA DE CINZAS
Nas tempestades que venho
Enfrentando dentro de mim
Das maiores tristezas que tenho
A pior não é dor do fim
O real desejo é perecer
E não sofrer esse penar
Dos enganos que finjo acreditar
Quando não é mentira o viver
E é na manhã de quarta
Que se guarda a fantasia
Na alma em satisfação farta
Em prazer o corpo se conforta
Sem aflições ou agonia
Tem-se a consciência morta
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