Peguei uma barca
Tracei jornada para um breve percurso
Pensando seguir o encanto sonoro de uma andorinha
Cortando o vento
Como talvez houvesse um jeito de que a vida fosse apenas pescar e foder
Não há comunismo nem capitalismo que dê conta das necessidades de viver
Mas onde só há o que pode ser feito
Da natureza de existir
Faz-se jeito
Fique bem claro que nunca fui à Cuba
Assim como Cuba talvez estivesse bem no meio da Baía de Guanabara
Todo esse tempo
E também o mundo estivesse lá
Apenas esperando
Ali mesmo onde a vista não alcança
Depois de além-mar
Foi lá barco, corri vento
Desci no cais
Quando fui feliz
Parei na praia
Talvez fosse sereia
Mas era algo na paisagem
Como que no passeio
Durante algum momento
O que existe por dentro
Fosse mais importante
Ah Paquetá!
O mundo que te rodeia
Te preserve e te guarde
És quem paga
Pela nossa ingratidão
Em pleno momento de contemplação
O que senti fez das emoções
Uma incontornável ligação
Com um campo de perplexões
Naquele passeio de bicicleta
Até pareceu-me que o tempo mudando
Naquelas nuvens carregadas de chuva
Fosse por causa da exceção daquele dia
Ou porque aquelas ruas não tinham calçamento
Havia um charme naquelas casas que a beleza não escondia
Ali antes se pescava com as mãos
Lamentei pelos golfinhos e as baleias
Mas fui incapaz de chorar
Vi a revoada de garças e mergulhões se alimentando
Rodeando o barco que lançava a rede
Como há muito tempo faziam
Pescadores e aves
E pude perceber que se eu não estivesse ali tudo aquilo não existiria
O mar de constatações naveguei
Como constelações que eu mesmo criara
Sabendo que para ser criança
Seja preciso apenas saber achar um novo caminho
Que os olhos não viam
Levaram meus passos
E foi-se construindo
Para novas memórias
Um mini-mundo de mini-série
Um micro-cosmos
Como eu pudesse pertencer
A uma existência plena
Parei um tempo sem nada na cabeça
Olhando pra dentro da baíaViver é ser fisgado como um peixe
Pra dentro do sonho