quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Com apreço, em homenagem ao aniversário do poeta Felipe Vital,

Não há presente melhor
Do que aquele que se pode escrever
No entanto, um tanto quanto pior
Se não se sabe o que fazer

A fim de presentear um poeta
Arrisco-me a escrever-lhe um soneto perfeito
Talento a que me dedico como asceta
Em busca do verso perfeito

Do grande sonetista
Que nesta data completa anos
Enalteço a alma de artista

Que domina a clássica tradição
Da difícil arte de escrever
Versos rimados com perfeição
QUATRO POEMAS DE CARNAVAL
E UM DE CINZAS

SÁBADO

A madrugada de sábado começa na noite de sexta
E há tantos desejos omitidos esperando um endereço
Que pode-se ouvir os gemidos da medonha besta
Farejando carne crua por debaixo do seu adereço

A loucura dos foliões contagia as esquinas
Apinhadas de gentes repletas de anseios
Dos quais na pureza de pênis e vaginas
Lançam bocas nas bocas e seios

Cada um sabe como se divertir nestes dias
Nas ruas, nas praças, nos largos,  à vontade
Deixam-se comover com as risadas mais vadias
Comprometendo-se apenas com a liberdade

Nas brincadeiras todos chafurdam em fantasia
Os sonhos afloram à pele e à permissividade
É imposto apenas o limite do senso de igualidade
Para que tudo se destine ao sabor da alegria



DOMINGO

A morte do dia é o renascimento da noite
No verso da manhã seguinte ouve-se ainda um canto
Vestindo-se de flores em vida
Nunca mais morrerás e então serás eterno

Há lixo entre confete e serpentina
A lama já tomou conta das ruas
O sol já queimou a nossa cara
E nossos corpos cobertos de purpurina

Não houve riso que não desatasse em gargalhada
No meio das maravilhosas fantasias
Disfarses que nos mostram como somos
Fugindo da crueldade do dia-a-dia



SEGUNDA-FEIRA

Palhaços, sereias, mariachis, piranhas
Cordões, blocos, agremiações e amigos
Freiras, cowboys, gogo boys, boys magia
Fadinhas, egípcios, você mesmo, gladiadores romanos
Imperadores, generais, doidos, mendigos
Pacientes, médicos, enfermeiras
Bailarinas, índios, policiais, passistas
Cangaceiros, samurais, melindrosas
Deuses, mortos-vivos, pelados
Beija-flores, onças, bois-tolos
Diabo e Inri-Cristo
Marajás, odaliscas, Cleópatra
Mosqueteiros, piratas, Don Juan
Arlequim, Pierrot, Colombina
Zebras, cobras, bodes, cães, gatas, cavalos e girafas
Saída de banho, políticos, ninfas e sátiros
Bebês, princesas, personagens mais diversos
Todos se lançando na folia
Brincando carnaval



TERÇA-FEIRA

A loucura é a cura
O fim do mundo
O dia que as pessoas esperam o ano inteiro
Um dia para sanar tudo pretendido
Desejos, vontades e afetos mal correspondidos
Tudo se acaba amanhã

Amanhã se dirá não houve nada
Tudo foram sonhos coletivos
Deixando-se levar
Seguindo o bloco
Seguindo o som
Sentindo o orvalho da madrugada na grama do Aterro
Sentindo o sereno da madrugada na cabeça
Na cabeça os melhores instintos
Na alma os maiores encantos

Tudo se acaba amanhã
No peito um cravo enterrado
Na cabeça uma tiara, uma coroa, uma coroa de flores
Estrelas na cabeça e chifres
Nos olhos brilho
No peito brilho
No corpo brilho
Brilho muito brilho
Na pele
Na alma
Brilho

E tem mais ano que vem
Tudo se acaba amanhã
E amanhã já será outro dia
Quando ainda haverá mais purpurina

Paz de realizar desejos
Vontade de ir aonde for
Seguindo os olhares e sorrisos
Festejando o desconhecido
Contrariando os preceitos
Quebrando a ordem mundial
Destruindo a família tradicional
E zombando na cara dos recalcados

O sucesso superou o fracassado
A mulher em andrajos era o rei
O fraco virou forte e ao perdedor também se ofertará os louros
O mendigo ofereceu o baquete
Aos convidados transantes que passavam
Percorrendo o Aterro
Descendo e subindo Santa
Pulando na Lapa
Festejando no Largo
Gritando na Praça

Alegria
Tudo se acaba amanhã
Fantasia

Seguiu o dia
Rompeu a noite
Virou madrugada

Não houve passado
Tudo se acaba amanhã
Não haverá desespero
Muito riso e alegria se fará eternamente
Muito amor em beijos ardentes e molhados
Abraços apertados em peles quentes e macias
Olhares profusos nos corpos alheios
Piadas, risadas e muita cantoria
Muita batucada
Muita cantoria
Muita batucada
Brilho, carinho de amor e alegria

Amanhã tudo se acaba
Tudo se acaba amanhã



QUARTA DE CINZAS

Nas tempestades que venho
Enfrentando dentro de mim
Das maiores tristezas que tenho
A pior não é dor do fim

O real desejo é perecer
E não sofrer esse penar
Dos enganos que finjo acreditar
Quando não é mentira o viver

E é na manhã de quarta
Que se guarda a fantasia
Na alma em satisfação farta

Em prazer o corpo se conforta
Sem aflições ou agonia
Tem-se a consciência morta

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Talvez escrevesse um poema
Não houvesse tantas grades
Tantas cercas
Tantas grades que nos prendem
Cercas de arame farpado

Elas não nos afastam da violência
Elas são a violência
Elas denunciam a pobreza
Denunciam a necessidade de uma pessoa ter que pular a grade para entrar no trem
A necessidade de uma pessoa pular o muro com arame eletrificado para entrar na sua casa
A necessidade de ter o que ele não tem

Vai fazer o que for
A primeira coisa que vai tirar de você
É o que ele não tem
Dignidade e respeito
A vida é o meu filme
Da chuva pra coroar
A primavera sublime
Gravado com celular

Uma nesga fio de lume
Culminando no monte
Na virada o horizonte
Do topo do alto cume

O aqui feito de agora
No exagero da hora
Prece que ultrapassa

Aqui o efeito demora
Quase como que piora
Pressa de obter graça