segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Felizes finados
Os mortos é que são felizes
Enquanto não morro
Tenho direito em ser triste
Morrer é prazer único
Não tem reprise
A longa espera
A hora irremediavel
Você morre e pronto
Não tem encenação
Quando a morte vem fazer uma visita
É de educação agradecer e convidar para entrar
Ah doce morte
O sereno descanso
A morte no mar
A morte sem vestígio
A morte sem corpo
E eu que tento e tento
Não morro
Eternamente

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Somos deuses e demônios no mesmo corpo
Uns insistem em ser demônios
Para outros que desejam ser deuses
A tarde enaltece como rouxinóis
O sabiá canta para entardar a noite
Ciscam tico-tico para aflorar as pedras
E as andorinhas rodeiam em voo para fazer o verão

Lendo Manuel de Barros aprendi que:
Se eu for tão bom como uma pedra
Posso ser umbral em pedra de cantaria
Ou um poema de João Cabral de Melo Neto

O eco das pedras ausculta o coração da gente
E os matinhos floridos dizem oi aos passantes
Se me piscam eu sofro como sapo que não canta
Cigarras são boas no que fazem e cantam bem em sí bemol

A busca por ascender é constante
A vigília do pico de onde se alto vê
O longe e o distante dialogam
Com o imenso e o vasto

O alerta do horizonte avista uma nesga de fumaça
O céu abre e o entardecer padece
Onde se alcançam as luzes cintilantes da cidade
Como os olhos são levados pelos pássaros
Marquês de Pombal nunca esteve no Brasil
Nas esquinas que entroncam
Os encruzamentos das trilhas de outrora
Adiante o final do Caminho de Mata-Cavalos
Atual Rua do Riachuelo
O Centro onde passam os encontros
De muitos deslocamentos
Um subúrbio do Centro
Vindo da Cruz Vermelha
À região do ausente Morro do Senado
Cruza a Mem de Sá com a Frei Caneca
Partindo do Campo de Santana
No calço da Lapa do Desterro
No limite da Zona Norte
Onde ficavam os chafarizes
Do Lagarto e Paulo Fernandes
Que recebiam quem por aqui
Chegava à cidade
O Centro periférico ao pé de Santa
No alto da Escadaria do Frei Orlando
Encontro no Morro Paula Mattos
Djanira nos portões do Paraíso
Para chegar ao Largo das Neves
Ter um dedo de prosa com Vinícius de Morais
E lá em cima ver o pôr-do-sol pela Zona Norte
Avistando o Catumbi e o Estácio e a Tijuca
Parado na encruzilhada com o diabo ao meu lado
Estou no não-lugar
Bem-vindos à Utopia
Não é aqui e não é lá
Não é Centro
Não é Senado
Não é Cruz Vermelha
Não é Santa Teresa
Não é Lapa
Não é Zona Norte
O final da Frei Caneca com a Mem de Sá com a Riachuelo
Desço por esta última
Encontro com Bentinho
Não devo alardar-lo sobre o seu futuro
Cumprimento com o chapéu
Apenas caminho que sigo
Já perto dos Arcos topo com Madame Satã
Que me pergunta se já vi a nova peça do Nelson Rodrigues
Digo-lhe que estou lendo novamente os Sonetos de Camões
Chegando à Cinelândia
Me deparo com o Convento d'Ajuda
Invadindo a Praça Floriano
E ao fundo o Morro do Castelo sendo desmontado
Quem sabe não morro como os morros do Rio
E morrendo
Eu rio
Como rio morrendo aos poucos para chegar ao mar
Parado lá está Bandeira
Apreciando o estilo eclético de inspiração néo-clássica do Teatro Municipal
Ao seu lado João do Rio
Explicava-lhe sobre sua visita ao Morro de Santo Antônio
Com ele sigo pela Rua da Cancela em direção ao Chafariz da Carioca
E na Travessa dos Poetas de Calçada
Ouço Drummond...
(Que por acaso não estava sentado em Copacabana)
...recitando Canto do Rio em Sol
Paro para escutá-lo por um instante
Como observasse a cidade do Pico da Tijuca
Sigo pela Rua da Vala
E de frente a uma cafeteria
Penso que Pessoa gostaria de ter vindo para cá com Ricardo Reis
Para espiar as pessoas na porta dos bares