domingo, 27 de novembro de 2016

Tinha uma sabiá morta que se via pela minha janela
Nos olhos daquele bicho tinha uma doçura inalcançável
A vida que não havia ali estava tomada de formigas
Elas são sempre as primeiras a chegar à cena de um crime

Tinha uma abelha morta na sacada dessa janela
Dava para ver a morte nas asas dela
Tinha um ar que não batia vento aquela manhã
Já sabia que era um mal presságio pra não sair naquele dia

Quando eu era criança tinha medo do amolador de facas
No silêncio da rua soava maldito zumbido sombrio de faca amolando
Parava a bicicleta e o chamado no girar da roda pairava sonoro
Ela tem muito da vida amolar facas

A roda gira o mundo afora sai faíscas
Diziam que quando ele passava
Alguém estava para morrer
Faca amolada dá perigo nas pessoas

domingo, 20 de novembro de 2016

Ontem os carrascos estavam em greve
Os juízes estavam de folga
Mas o diabo estava lá para me advogar
A morte veio fazer uma visita ontem
Mas não entrou
Ficou na porta e disse
Estou apressado
Fico te devendo essa
Mas é que não vou poder
O olho da morte era frio e sereno
Não veio assustar
Tocou a campainha
Mas não entrou
Ficou da porta e disse
Passo mais tarde com calma

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Nessa noite
O próprio Satanás
Se apoiou em mim
Pedindo passagem
Ao som furioso de harpas celestiais

Eu sou uma sombra desse século
Eu sou a própria escuridão
Não fosse os lampiões iluminando a rua
Estaríamos a própria sorte

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Cercam Tiradentes
A Justiça
A Liberdade
A Fidelidade
A União
Homem louco por morrer
Quis o que quis e foi lá buscar
Teve paz para alcançar
Quando só Sade sabia o que era prazer
Chamou luz e trovão
Fez garrote e boticão
Pra amarrar boi com sua corda no pescoço
A Santa Lampedusa viu
Indo pela avenida
Passos lentos e sagrados
No Amazonas, no São Francisco
No Madeira e no Paraná
Se ouviu o grito
E toda a água ainda não lavou
O seu sangue
Nobre desejo de liberdade
Glorioso destino na forca
Sal grosso e vísceras expostas
Urbe é aglomeração
Não há liberdade sem coração
Calafrio de possibilidade
Delimitando o espaço linear selvagem sem idade
Esquadrinhando uma formatação
Onde antes havia verdadeira diversidade
Há largos, praças, ruas e avenidas
Essa constituição social
Enquadrada em linhas abissais
Ferindo a selvageria humana
Nessa civilização excludente

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Subindo as ladeiras
Segue o bonde pela rua do cano
Desce o cano até a Sete de Setembro
Vem das terras do Silvestre
Trazendo o Rio Carioca sinuoso
Pelo morro da Nova Cintra
E São Judas Tadeu
Do alto do Desterro
Descendo as ladeiras

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Justiça
Liberdade
Ciência
Poesia

Justiça
Liberdade
Fidelidade
União

Rio Paraná
Rio Madeira
Rio Amazonas
Rio São Francisco

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Ah Camões
Meu nobre poeta
Teus versos puros e calorosos
Sonetista habilidoso
Tenho olho para esquinas
Desabrocho azulejos
Compensado de balcões de salgados
Quem dava saber conchas encimadas nos sobrados
Ladrilho escamas em padrões madre-pérola
Mendigo que almeja arte
Feito árvore que deseja pássaro
Frontão triangular e folha de acanto
Santa barroca no cimo estrelado
Doce de abóbada
Cúpula e pedestal

A moça que segura o bebê
Olha da varanda da sacada
O calçamento que faz as estradas
São três flechas cruzadas
Sobre o peito
Ladeadas por golfinhos bailarinos
Confeitos de espelhos na escada
É do largo que o canto vinha
Dos quilombos no meio da mata
Um senhora dava corda no chafariz
O relógio já marcava aquela hora
Imagem que converge olho por olho
Silêncio que emerge do calabouço
Açoitado pela agressão da violência
Onde não sobram casas para todos
Solidão é a questão que me impele
Nessa cidade cosmopolita e colonial