sábado, 25 de abril de 2015

O lugar da amizade

Quando estamos num lugar
Cercado por distintas pessoas
Pode o interesse agregar mais
Do que o afeto

À primeira instância
Tudo pode parecer igual
Um lugar para reunir desconhecidos
Com interesses em comum

Onde a amizade acontece
Para que os desencontros
Tenham algum sentido
Fora o destino que já conhecemos

Quem esteve lá não desperdiça
Um momento de sinceridade
Houve um tempo que acreditávamos
Na inocência da proximidade

Como quando crianças se encontram
No olhar pela primeira vez
E começam a brincar juntas
Numa praça ao lado de casa
Sem vocês sou fumo-palha
Sem vocês sou desbelotador desdentado
Sou pacotinho de sedas vazio
Sem vocês sou isqueiro sem gás


Sou baseado mal-apertado

Minguado
Perninha de grilo


Com vocês sou maconha no pé

Esperando pra ser colhida

Sem vocês

Me falta um amigo
Tem certas horas
Em que a vida pede seriedade

Ao íntimo impulso de festejar
Para a sorte fatal em morrer

Se por acaso me vires por aí
Rindo a dar nas vistas

Faça de conta que foi cantoria
Mas não escondo que é só saudade

Como de fato somos ignorantes
Estar cego é descobrir a verdade

O menino vence o monstro
Sem choro e sem medo

Dentro do olho um abismo
O risco oferecendo um desafio

Eleva o nível de atividade
Desperta para o sonho sem falsidade

Superação te leva avante
Do fundo da noite à praia mais bela

"Nunca te falte a saúde, a visão, o pão de cada dia" — Senhora cega no trem

O perigo é uma ilha
Bem próxima à costa
Onde sete rios desaguam.

Os rios são caminhos
Que reservam um tesouro
Encerrados num relicário.

O segredo é uma navalha
Afiada na direção oposta:
Mais se fere quem te corta.

Sete dias na semana,
Sete cores no arco-íris,
Sete pérolas douradas
Na nascente desses rios.

Haja flor! tenho navalha
Não tenho amor! Ai que dó
Será ilha, será caminho?

O desejo é um catálogo
Na revista de cosméticos
Pra ser pago à vista no ato.

O prazer é uma ostra
Preparada prum banquete
Ofertando toda a fortuna.

Resposta sem ressentimentos ao poeta,
e também ao amigo, Carlos Tristão de Almeida

Não há inocência nas pobres razões
Que nos incuta um suposto benefício.
Assim fajuto, como módico artifício
De uma ação pervertida por desilusões.

O que possuiria mais valia, se a espontaneidade
De um ato impensado e puro, ou
A engenhosidade
De um movimento apreendido e que se refinou?

Então, se não existe verdade, só o pensamento...
Seria abstrusa vaidade, todo o vão sofrimento.
A carência ou a solidão, se me tornam subserviente,
Não permitem um gesto profundo do inconsciente.

Se há, de fato, bondade, esta não está na alma nem no coração
Um... pulsa sem vontade, a outra
mira-se além de humana compreensão.
A metafísica que move tudo está noutra...