domingo, 17 de maio de 2015

Como a felicidade fosse uma ilha
Peguei uma barca
Tracei jornada para um breve percurso
Pensando seguir o encanto sonoro de uma andorinha
Cortando o vento
Como talvez houvesse um jeito de que a vida fosse apenas pescar e foder

Não há comunismo nem capitalismo que dê conta das necessidades de viver
Mas onde só há o que pode ser feito
Da natureza de existir
Faz-se jeito

Fique bem claro que nunca fui à Cuba
Assim como Cuba talvez estivesse bem no meio da Baía de Guanabara
Todo esse tempo
E também o mundo estivesse lá
Apenas esperando
Ali mesmo onde a vista não alcança
Depois de além-mar
Foi lá barco, corri vento
Desci no cais
Quando fui feliz
Parei na praia

Talvez fosse sereia
Mas era algo na paisagem
Como que no passeio
Durante algum momento
O que existe por dentro
Fosse mais importante

Ah Paquetá!
O mundo que te rodeia
Te preserve e te guarde
És quem paga
Pela nossa ingratidão

Em pleno momento de contemplação
O que senti fez das emoções
Uma incontornável ligação
Com um campo de perplexões

Naquele passeio de bicicleta
Até pareceu-me que o tempo mudando
Naquelas nuvens carregadas de chuva
Fosse por causa da exceção daquele dia
Ou porque aquelas ruas não tinham calçamento
Havia um charme naquelas casas que a beleza não escondia
Ali antes se pescava com as mãos
Lamentei pelos golfinhos e as baleias
Mas fui incapaz de chorar
Vi a revoada de garças e mergulhões se alimentando
Rodeando o barco que lançava a rede
Como há muito tempo faziam
Pescadores e aves
E pude perceber que se eu não estivesse ali tudo aquilo não existiria

O mar de constatações naveguei
Como constelações que eu mesmo criara
Sabendo que para ser criança
Seja preciso apenas saber achar um novo caminho

Reconhecer o percurso
Que os olhos não viam
Levaram meus passos
E foi-se construindo
Para novas memórias
Um mini-mundo de mini-série
Um micro-cosmos
Como eu pudesse pertencer
A uma existência plena

Parei um tempo sem nada na cabeça
Olhando pra dentro da baía

Viver é ser fisgado como um peixe
Pra dentro do sonho

sábado, 25 de abril de 2015

O lugar da amizade

Quando estamos num lugar
Cercado por distintas pessoas
Pode o interesse agregar mais
Do que o afeto

À primeira instância
Tudo pode parecer igual
Um lugar para reunir desconhecidos
Com interesses em comum

Onde a amizade acontece
Para que os desencontros
Tenham algum sentido
Fora o destino que já conhecemos

Quem esteve lá não desperdiça
Um momento de sinceridade
Houve um tempo que acreditávamos
Na inocência da proximidade

Como quando crianças se encontram
No olhar pela primeira vez
E começam a brincar juntas
Numa praça ao lado de casa
Sem vocês sou fumo-palha
Sem vocês sou desbelotador desdentado
Sou pacotinho de sedas vazio
Sem vocês sou isqueiro sem gás


Sou baseado mal-apertado

Minguado
Perninha de grilo


Com vocês sou maconha no pé

Esperando pra ser colhida

Sem vocês

Me falta um amigo
Tem certas horas
Em que a vida pede seriedade

Ao íntimo impulso de festejar
Para a sorte fatal em morrer

Se por acaso me vires por aí
Rindo a dar nas vistas

Faça de conta que foi cantoria
Mas não escondo que é só saudade

Como de fato somos ignorantes
Estar cego é descobrir a verdade

O menino vence o monstro
Sem choro e sem medo

Dentro do olho um abismo
O risco oferecendo um desafio

Eleva o nível de atividade
Desperta para o sonho sem falsidade

Superação te leva avante
Do fundo da noite à praia mais bela

"Nunca te falte a saúde, a visão, o pão de cada dia" — Senhora cega no trem

O perigo é uma ilha
Bem próxima à costa
Onde sete rios desaguam.

Os rios são caminhos
Que reservam um tesouro
Encerrados num relicário.

O segredo é uma navalha
Afiada na direção oposta:
Mais se fere quem te corta.

Sete dias na semana,
Sete cores no arco-íris,
Sete pérolas douradas
Na nascente desses rios.

Haja flor! tenho navalha
Não tenho amor! Ai que dó
Será ilha, será caminho?

O desejo é um catálogo
Na revista de cosméticos
Pra ser pago à vista no ato.

O prazer é uma ostra
Preparada prum banquete
Ofertando toda a fortuna.

Resposta sem ressentimentos ao poeta,
e também ao amigo, Carlos Tristão de Almeida

Não há inocência nas pobres razões
Que nos incuta um suposto benefício.
Assim fajuto, como módico artifício
De uma ação pervertida por desilusões.

O que possuiria mais valia, se a espontaneidade
De um ato impensado e puro, ou
A engenhosidade
De um movimento apreendido e que se refinou?

Então, se não existe verdade, só o pensamento...
Seria abstrusa vaidade, todo o vão sofrimento.
A carência ou a solidão, se me tornam subserviente,
Não permitem um gesto profundo do inconsciente.

Se há, de fato, bondade, esta não está na alma nem no coração
Um... pulsa sem vontade, a outra
mira-se além de humana compreensão.
A metafísica que move tudo está noutra...

sábado, 31 de janeiro de 2015

A ameaça

Está pelas ruas onde se pode ver
e para onde olha não se esconde

Esguia e agitada ela não dorme
e ainda nem serviu-se do café

Ela tem fome e os olhos abertos
mas ainda é cedo pra se levantar

Ah, quem pudera saber do perigo
naquele dia não sairia da cama
mas ela nunca estava atrasada

Veio vindo no asfalto quente
e sempre que ela olha pra mim
há um ranso de medo nos cantos