terça-feira, 3 de maio de 2016

Tendes o dom de me fazer clemente
Minha senhora
Mas se meu penar a mim vos trouxesse
Cegaria meus próprios olhos
Pois de que me serviria a visão
Se não mais vos visse
Cortaria meus pulsos
E acabaria esse poema
Pois de que serviriam minhas mãos
Se não pudessem sentir o vosso corpo

Mas sei que todo sofrer é vão
Caríssima amiga
Se por perto não vos tenho
Tivesse eu escalado montanhas obtusas
Superado penhascos abssais
Ou nadasse distâncias oceânicas
Corresse o risco de mendigar-vos um beijo
E chorar a frente de vossa casa por um afago do vosso sorriso
A mercê de vossos carinhos
De apenas um gesto do vosso olhar

Pois até mesmo o mor desprezo
Minha senhora
Ou toda a dor a que me sujeitassem esses desafios
Na esperança da vossa piedade
Seria capaz de alegrar-me
No clamor dos meus versos
Tão pequena seria a pena dessa penitência
Para sentir o perfume no véu do vosso cabelo
E perder-me no vosso labirinto atrás da orelha
Em busca do enigma do meu desejo

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Onde há hoje o jardim
Antes crescia o mato

Se não há trabalho
Não se vê a obra

Não se ara o solo
E se espalha a hera

Espio uma poda
Avisto um inseto

Escolho uma muda
Refaço o monturo

As folhas no quintal
Juntam-se ao canto

Com o mesmo esmero
Que escavei a terra

E coloquei a semente
Com as minhas mãos

Bem no seio da vida
Sentindo seu corpo